Sabrina Noivas 57 - The Almost-Perfect Proposal

Minha adorada, Eu te amo e, estando tanto tempo separados, percebo quanto preciso de voc a meu lado. Espero que possa me prometer que, quando esta guerra acabar, estarei voltando para casa por voc. Diga que aceita ser minha esposa. Com todo o meu amor, sempre. Amy no podia acreditar no que seus olhos irremediavelmente romnticos liam: uma proposta de casamento escrita cinqenta anos antes, que sua me jamais recebera! Em nome do verdadeiro amor, precisava urgentemente reunir os antigos apaixonados! Mas, para isso, teria de convencer o ctico Brian Reynolds de que seu velho pai era a alma gmea de Marian, a me de Amy. O que poderia ser mais romntico do que aquele casamento? Uma cerimnia de casamento dupla, talvez?

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publio original: 1997. Gnero: Romance contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida
A proposta dos sonhos de Amy:

1.Futuro noivo de joelhos  depois de tudo, as propostas
apenas sero bem-sucedidas se forem feitas pessoalmente.

2.Enorme buque de flores  espero no ser alrgica!

3. Serenata  luz da lua  sem msicas com tons agudos, por favor.

4. O maior "transtorno" ele pode evitar  depois de tudo, todos
sero comparados no escritrio.

5. Certifique-se de que ele est absolutamente
apaixonado por voc (e no estou falando apenas do champanhe)!


CAPITULO I

Boston

O que  isso? Uma piada?  perguntou Amy Barrington. O carteiro no sabia o que fazer.
	Receio que no.  Entregou a carta, ligeiramente desconcertado.  No sei por que levou tanto tempo para chegar.
Mas antes tarde do que nunca!
Amy segurou o envelope amarelecido.
	Depende do contedo  respondeu, cautelosa.  Obrigada, Harry.
	Espero que no sejam ms notcias.
	Tambm espero.
Depois que o carteiro saiu, Amy fechou a porta da frente e olhou para o envelope, ainda incrdula. Aquela carta ficara perdida no correio por mais de cinquenta anos! Com data de 2 de julho de 1944, fora postada na Europa durante a Segunda Grande Guerra e estava endereada  sua me.
"Devo abri-la?", ela se perguntou, olhando para o alto da escada. "Ou simplesmente a entrego a mame?"
Poderia ser arriscado, ponderou enquanto subia os degraus. O estado de sade de Marian Haskell Barrington era delicado e a carta, qualquer que fosse o contedo, teria um profundo impacto nela.
Passando direto pelo quarto da me, Amy levou o documento at seu escritrio. Reconheceu o nome do remetente: John Reynolds, o homem que Marian mencionara tantas vezes nos ltimos oito meses. Ele fora o grande amor da vida de Marian. No fosse a guerra, poderiam ter-se casado.
Amy amara o pai profundamente. Sabia que Marian e Charles haviam sido devotados um ao outro durante os quarenta anos de casamento. Mas, como romntica de carteirinha, no podia deixar de imaginar como teria sido viver um grande amor. Sempre se encantava com as histrias que a me lhe contava, com as cartas de John, to cheias de perigo e aventuras. Lembrava-se de uma, em particular, em que ele relatava uma misso em Paris. Passara por alguns cafs, juntamente com alguns membros da Resistncia, e expressava a vontade de, um dia, voltar queles lugares com Marian. Uma guerra estava acontecendo e cada dia podia ser o ltimo, mas o corao de John mantinha-se junto ao de sua amada.
"Isso sim,  amor!", decidiu ela.
Passando os dedos peias pontas amarelecidas do envelope, desejou saber como seria ter um grande amor.
A carta a fez refletir sobre sua vida amorosa ou, mais especificamente, sobre a falta de amor em sua vida. Se ao menos pudesse esquecer-se da dor que o ex-marido lhe causara!
	Aonde est indo?  Amy perguntou, erguendo os olhos do computador.
Parker parou  porta do escritrio.
	Estou partindo. Vou embora.  O tom do marido era impiedosamente frio.  Quero o divrcio.
At aquele momento, Amy no desconfiara que seu casamento no estivesse indo bem. Conhecera Parker Ryan na universidade. Estudava artes, enquanto ele fazia mestrado em administrao de empresas. Namoraram durante quase quatro anos. Amy pensava conhecer bem o homem com quem se casara. Aparentemente, estava errada.
	No entendo...
	No entende?  ele perguntara.   muito simples: quero o divrcio.
	Mas por qu? No estamos com nenhum problema!
	Se quer saber, no temos tido nada ultimamente  ele retrucara.  Voc tem sua vida, eu tenho a minha. Temos pouco em comum, e isso voc no pode negar.
	Reconheo que no temos passado muito tempo juntos ultimamente, mas...
	Voc tem passado mais tempo com Adam McCabe do que comigo  ele atalhou.
	No  justo, Parker!  meu lado profissional! No gosto disso tanto quanto voc!
	Para mim, tanto faz. J no  problem.   meu.
Para Amy, nada daquilo fazia sentido. Como Parker podia sentir cime de um homem que nem existia? Adam McCabe era fictcio!
Sete anos antes, ela escrevera e vendera seu primeiro romance policial. Infelizmente, os editores no acreditavam que um detetive duro, criado por uma mulher, teria boa aceitao. Assim, insistiram em que ela usasse um pseudnimo. Amy odiara a ideia, mas Parker a considerara divertida... at Adam McCabe tornar-se um grande sucesso.
	Ento  isso?  ela perguntou.
	Do que est falando?
	De meu sucesso como escritora.  este o problema.
	No seja tola!
	No  tolice. Comeou a sentir cime de minha carreira desde que recebi a prestao de contas da venda do primeiro livro.
	No  verdade.
	, sim. No me diga que  coincidncia voc ter decidido sair de casa na mesma semana em que assinei um novo contrato.
	Ora, no seja to convencida!
	Depois de todos esses anos, como pude no me dar conta de quanto  inseguro?
	Inseguro!
	Claro! Voc no via problemas na minha carreira at eu me tornar o maior salrio da casa.
	Que absurdo!
Erguendo a mala, ele partiu sem dizer adeus.
Os pensamentos de Amy retornaram ao presente. Contemplou o envelope, convencida de que aquela carta diria a sua me que John Reynolds no a rejeitara, que a amava e que um erro humano os separara.
"Pelo bem de minha me, preciso saber o que diz esta carta antes de mostrar a ela", Amy ponderou durante alguns segundos. Talvez aquelas folhas falassem de um futuro em comum para Marian Haskell e John Reynolds... se o destino no tivesse interferido, claro.
Era inevitvel imaginar como tudo seria diferente se a carta tivesse sido recebida no devido tempo. Marian haveria se casado com John e, certamente, jamais teria conhecido Charles Bar-rington. E Amy no teria nascido.
As reviravoltas do destino a fascinavam. Passou o resto da manh pensando naquilo. Desde que sara do hospital, poucas semanas antes, sua me, quando conseguia manter-se acordada, passava a maior parte do tempo recordando o passado, lembrando-se da infncia das filhas e do homem que fora seu grande amor.
Desde que o marido morrera, Marian passara a falar sobre John Reynolds, sempre com muita ternura. Mostrara a Amy todas as fotografias, todas as cartas que recebera durante a guerra. Jamais entendera por que ele parara de escrever. Perguntava-se se havia morrido ou se simplesmente conhecera outra mulher.
Aquela carta poderia provar que John no a havia esquecido.
	Como est se sentindo, mame?  Amy perguntou ao entrar no quarto de Marian.
	Cansada  a mulher mais velha respondeu, franzindo a testa.  E eu nem deveria estar cansada, depois de todo o tempo que passo dormindo.
	O mdico disse que seria assim mesmo  tranqilizou-a Amy, ajeitando-lhe o travesseiro.  Com o tempo, passa.
	Creio que ficarei louca se no puder sair de casa nos prximos dias  reclamou Marian quando a filha colocou-lhe  frente a bandeja com o almoo.
	No vai demorar muito. E, a propsito, precisamos comprar uma boa peruca.
A me meneou a cabea, confirmando.
	 uma boa ideia.
Enquanto colocava uma cadeira ao lado da cama, Amy percebeu que a me parecia inquieta.
	O carteiro trouxe algo para voc hoje cedo  disse gentilmente.
	Outro cartozinho me desejando boa recuperao?
	No, uma carta.
	De quem?
Amy hesitou, mas s por um momento.
	De John Reynolds.
Marian deixou o garfo cair.
	John?
	 uma carta muito antiga  disse Amy.  De acordo com o selo, foi postada em 1944.
Marian ponderou durante alguns instantes.
	Durante a guerra!
	Exatamente.
	Pensei que ele tivesse morrido...  Os olhos de Marian lacrimejaram.
	A ltima carta que recebeu de John era da metade de junho  lembrou Amy.  Esta foi escrita em julho.
	Levou muito tempo para chegar.
Amy analisou o rosto da me. Apesar da idade, ainda era uma mulher bonita.
	Vou ler enquanto voc almoa.
Marian concordou.
Enquanto lia, Amy frequentemente erguia os olhos para saber como a me estava reagindo.
2 de julho de 1944.
Adorada Marian,
Quanto mais tempo passo aqui, mais vejo, mais sinto quanto a vida  preciosa. Vivemos cada dia sabendo que poder ser o ltimo. Isso nos faz pensar como  curta nossa passagem pela Terra, como no podemos perder um minuto sequer. E sobre isso que estou lhe escrevendo.
Eu a amo, e a distncia s me faz perceber quanto  profundo o que sinto. No sei o que ir acontecer. No sei se sairei vivo desta guerra, mas, se eu voltar para casa, se toda esta loucura terminar, espero que possa me prometer que estarei voltando por voc. Diga que se casar comigo, Marian!
Com todo o meu amor, sempre.
John.
A me de Amy comeou a soluar copiosamente.
	E eu nunca soube...  ela disse com voz enrouquecida, aceitando o leno de papel que a filha lhe oferecera.  Pensei que ele estivesse morto!
	John queria se casar com voc. E hoje tudo seria diferente se esta carta no se tivesse perdido no correio.
Marian segurou a mo de Amy.
	Seu pai foi um homem maravilhoso, e eu o amei de verdade. Jamais duvide disso. 
	Eu sei, mas... se voc pudesse ter sabido que John queria se casar...
	No sei  respondeu Marian, sinceramente.  Creio que teria esperado por ele.
	E voc e papai jamais teriam se conhecido  concluiu Amy.
	No posso dizer com certeza. Ns nos conhecemos antes da guerra. Teria me casado com Charles de qualquer forma.
"Ela no tem certeza", refletiu Amy. "Est dizendo isso apenas por minha causa."  
Amy passou a noite em claro, pensando nos eventos do dia. Era uma sensao estranha saber que, por um simples erro de um estranho, poderia no ter nascido.
Seus pais teriam se conhecido de qualquer forma? Possivelmente. Teriam se casado assim mesmo? Disso, no estava muito certa. Marian e John Reynolds haveriam se casado, afinal? Tudo levava a crer que sim. E o casamento, teria durado? Isso era difcil imaginar.
Como seriam as crianas daquele casamento? O que teria acontecido a John Reynolds? Teria sobrevivido  guerra? Casara-se? Tinha filhos? Ainda era vivo?
As perguntas no terminavam.
Amy pensou na me, em como mudara aps saber da carta. Parecia ter rejuvenescido. Como reagiria se John aparecesse, de repente, em carne e osso?
Perguntou-se onde o homem estaria naquele momento. Ainda pensaria em Marian? Certamente que sim. Afinal, um dia desejara casar-se com ela.
Amy lembrou-se de sua me ter dito, mais de uma vez, que John Reynolds morava numa cidadezinha na costa do Maine, chamada Porto de Burke. Comentara que ele desejava voltar para l depois da guerra. Talvez tivesse voltado...
Se Amy pudesse encontr-lo e traz-lo at sua casa, Marian obteria um remdio poderoso. Mas era loucura. No poderia simplesmente ligar para o homem e... Bem, decerto no poderia, porque no sabia o nmero. Mas, se o conseguisse, o que diria? "Ol, sr. Reynolds, o senhor quase se casou com minha me..."
No, definitivamente no era uma boa ideia.
John na certa casara-se com outra. Ao no receber resposta ao pedido de casamento, acreditaria ter sido rejeitado.
Inevitavelmente, Amy pensou no pai. Teria sabido a respeito de John Reynolds? Jamais o demonstrara. Na verdade, no era um assunto que um homem pudesse discutir com a mulher diante de duas filhas. Mas, se Charles houvesse sabido, teria ficado preocupado?
Amy acreditava que no. No importava o que a me tivesse sentido por John Reynolds, ela e Charles Barrington haviam desfrutado um bom casamento. Juntos, foram muito felizes. Estava absolutamente segura disso.
Assim que o sol se ergueu por detrs do porto de Boston, Amy tomou uma deciso. Tentaria encontrar John Reynolds.
No sentia que, com isso, viria a ferir a memria do pai. Na verdade, sabia que ele entenderia. Afinal, estava apenas procurando ajudar a me.
Saltou da cama e vestiu um robe. Andando silenciosamente, foi para o escritrio e procurou um mapa rodovirio em que aparecesse o estado do Maine. Correu o dedo indicador pelo papel at encontrar o que queria: Porto de Burke, a oeste de Kennenbunkport. Era um lugar muito bom. Sem se cansar muito, poderia chegar l, de carro, em duas horas.
Pegou o telefone na escrivaninha e discou o nmero da irm, em Cape Cod. Quando Patti atendeu, parecia sonolenta.
	Al?
	Patti,  Amy.
	Amy? Sabe que horas so?
	Sei que  cedo, mas no estaria ligando se no fosse
urgente.
Patti ficou assustada.
	Mame est bem?
	Est tima  Amy assegurou.  No se preocupe.
	Ento o que houve?  melhor que seja alguma coisa boa.
	Preciso que voc venha ficar com ela. Devo viajar.
	A trabalho?
	Sim... a trabalho.
Amy decidiu que seria melhor ainda no dizer a Patti aonde estava indo. Na verdade, tampouco iria contar  me. No queria desapont-la se no conseguisse encontrar John Reynolds.
	Quando pretende partir?
	Assim que for possvel.
	Posso chegar a amanh.
	Obrigada, Pat.
Assim que desligou, Amy foi para o quarto, fazer a mala.

CAPITULO II

Porto de Burke, Maine

Voc est com uma aparncia cansada  Katie Kirk comentou com o irmo ao v-lo entrar no pequeno hotel do qual era proprietria. Brian Reynolds balanou a cabea, exasperado.
	No sei quanto tempo ainda vou aguentar  ele admitiu.
	Papai, novamente?
	Na idade dele, era de esperar que no tivesse mais foras para causar problemas  Brian reclamou.  Espero ter a mesma energia quando ficar mais velho.
Katie reprovou-o com um sorriso.
	Ele no  to velho assim.
	. E ainda por cima com aquela perna ruim...
	Por que brigaram dessa vez?  Katie perguntou, fechando o livro de reservas e erguendo-se de sua cadeira na recepo.
	Por tudo e por nada  ele disse, bufando.  Basta estarmos juntos para brigar.
	Talvez seja melhor papai vir morar com Jerry e comigo.
Brian balanou a cabea com veemncia.
	J conversamos a esse respeito. Sabe to bem quanto eu que ele jamais concordar.
	Mas por que insistiria em continuar morando com voc, do jeito que esto discutindo?
	Ele quer ficar na casa dele  Brian lembrou.
	E ocorre que voc est l  Katie concluiu.
Exatamente. Por acaso estou sentindo cheiro de caf fresco?
Ela riu.
Precisa perguntar? Quer uma xcara?
Brian seguiu a irm at a grande cozinha em estilo rural. Katie tirou duas xcaras de dentro de um dos armrios e serviu o caf fumegante.
	No se cansa de vir aqui s para tomar o caf da manh?  ela instigou.
Ele deu de ombros enquanto sentava-se  mesa.
	 mais fcil do que fazer em casa.
	No est querendo dizer que  mais fcil do que tomar caf com papai?  Katie recolocou a jarra na cafeteira eltrica e aproximou-se da mesa com as duas xcaras.
	Talvez  ele respondeu depois de um instante, segurando a caneca que a irm lhe entregara.
	Por que o odeia tanto, Bri?  Katie sentou-se diante do irmo.
Ele se mostrou verdadeiramente surpreso com a pergunta.
	Quem disse que o odeio?
	No  a mim que vai querer enganar...
	S no conseguimos nos entender, ora  ele respondeu, evasivo.
	 uma maneira muito suave de descrever o relacionamento de vocs dois.
	Mas  apenas isso!
Ela no parecia convencida.
	Vocs esto assim desde que ele e mame se separaram.
Brian respirou fundo.
	Est bem. No sou muito bom em disfarar meus sentimentos.
	Qual  o problema, mano?

	No consigo esquecer o que ele fez a nossa me  Brian confessou.
	Mame o abandonou, Bri, e no o contrrio.
	Ela partiu porque papai no a amava.
	No  verdade.
	Ele estava apaixonado por outra  disse Brian.  Sabe disso to bem quanto eu.
	Oh, vamos... Isso foi h muito tempo  Katie alegou. Foi durante a guerra.
	Papai nunca conseguiu esquec-la.
	Como pode saber?
	Mame sabia. Por que acha que ela o abandonou?
	No  justo, Brian  Katie protestou.  Em alguns casais, simplesmente um no nasceu para o outro. Acontece.
Ele fechou o semblante.
	E voc ainda quer saber por que no me casei novamente depois que Elaine morreu!
	Voc no se casou novamente porque no conseguiu encontrar outra mulher disposta a suport-lo  brincou Katie.
	Muito engraado!  Ele terminou o caf.  Preciso ir  disse, erguendo-se da mesa.
	Por que tanta pressa?
Brian sorriu.
	Vai ficar na curiosidade, maninha.
Seguindo o rumo norte ao longo da costa do Atlntico numa encantadora tarde de maio, Amy normalmente teria ficado deslumbrada com a paisagem. Mas no dessa vez. Sua mente tinha outras preocupaes. Precisava encontrar John Reynolds.
Patti certamente pensaria que estava louca. Os amigos sem dvida a considerariam maluca. Acima de tudo, ela mesma comeava a duvidar de sua sanidade mental.
Mas Marian... Sua me a entenderia.
Apenas ela entenderia a fascinao de Amy pela carta, pela vida de duas pessoas irrevogavelmente alterada por um erro.
John ainda pensaria em Marian? Alimentaria algum sentimento por ela? Ainda estaria vivo?
"E se John estiver vivo?", Amy se perguntou. "O que direi a ele? Bem, tudo depender de saber se est casado. Mame  viva. Talvez ele tambm seja."
Amy chegou a Porto de Burke no comeo da tarde. Depois de uma breve parada num posto de gasolina, conseguiu o nome do nico hotelzinho da cidade. Vinte minutos mais tarde j se entendera com a dona do local, que agora lhe mostrava o quarto.
	Se precisar de alguma coisa, fale comigo. Vai querer jantar?  perguntou-lhe a mulher simptica e despachada que a levara at o quarto.  Sou Katie Kirk, a proprietria deste estabelecimento.
Amy sorriu.
	Sim, obrigada.
	Sua visita a Porto de Burke  para tratar de negcios ou simplesmente um passeio?
	Na verdade, nem uma coisa, nem outra  Amy admitiu.
Katie mostrou-se confusa.
	Como assim?
	Estou procurando algum  Amy explicou.
A moa sorriu.
	No ser difcil encontrar. A cidade  muito pequena.
	Espero que esteja certa. Minha me est muito doente. Se puder encontrar essa pessoa, sei que vai se recuperar rapidamente.
	Ento o assunto  srio, hein? Talvez eu possa ajudar. Passei a vida toda em Porto de Burke.
Amy no perdeu tempo:
	Muito obrigada. Esse homem, a pessoa que estou procurando,  algum que minha me conheceu h muitos anos.
Algum por quem esteve profundamente apaixonada.
	O que houve?
	Ela pensou ter sido rejeitada. De um dia para outro, no teve mais notcias. Portanto, deduziu que ele a trocara por outra.
	Jamais tentou reencontr-lo?  perguntou Katie, enquanto verificava se as gavetas e o armrio estavam limpos.
Amy balanou a cabea.
	No. Simplesmente acreditou que foi rejeitada.
	Mas no foi?
	No  respondeu Amy.  Ele escreveu, pedindo-a em casamento. Teria sido perfeito se a carta no tivesse se perdido no correio.
	Ora, mas isso  muito romntico!
	No  mesmo?
	E seu pai?
	Meu pai?  Amy no compreendia a preocupao de Katie.
	Como ele se sente a respeito?
	Papai nunca soube. Eles tiveram um bom casamento e se amavam muito. Mas creio que minha me jamais deixou de pensar em como teria sido com o primeiro namorado.
Katie refletiu por alguns instantes.
	Se a carta se perdeu no correio  disse, por fim , como soube que o homem a mandou?
	Essa  a parte inusitada da histria. A carta que se perdeu no correio foi finalmente entregue esta semana.
	 mesmo?
Katie mostrou-se intrigada, esperando pelo final da histria.
	Mais de cinquenta anos aps ter sido remetida, foi entregue.  Amy balanou a cabea.  H pouco tempo minha me sofreu uma cirurgia no crebro e no vinha se sentindo bem. Meu pai morreu h quatro anos; ela estava infeliz e sozinha. Nada poderia t-la animado mais do que aquela carta.
	O homem... Qual  o nome dele? Talvez eu o conhea.
	Reynolds. John Reynolds.
	Onde est papai?
Brian olhou para a irm ofegante com o canto dos olhos, curioso.
	A expresso no  muito adequada, mas parece que voc veio tirar o pai da forca...
	Onde est ele?
	No est aqui  disse Brian.  Discutimos novamente.
Ele ficou zangado e saiu.
	E voc o deixou sair sozinho?
	Ele  adulto, Katie. No vai me contar o que est acontecendo?
	H uma mulher hospedada no hotel.
Brian sorriu.
	No acha que ele est um pouco velho para esse tipo de coisa?
	Estou falando srio!
	Eu tambm. Quer que o velho morra de ataque cardaco?
	Voc no est compreendendo...
	Est bem  ele concedeu.  Ento me explique.
	Essa mulher veio de Boston para encontrar um homem que a me conheceu h muitos anos  Katie contou.  Eram namorados, antes da guerra. Ele enviou por carta o pedido de casamento, enquanto servia na Europa. O envelope extraviou-se no correio... e a mulher deduziu que fora rejeitada.
	Tocante!  ele ironizou.
	S que a carta finalmente chegou esta semana.
	E ento?
	Bem, o pai da moa morreu e a me, que sofreu uma grave cirurgia h pouco tempo, agora est sozinha  Katie explicou.
	E o que voc tem com isso?
Ela o fitou no fundo dos olhos.
	O homem que ela est procurando, Brian,  nosso pai. A me da moa  a mulher com quem ele queria se casar antes de conhecer mame!
	No pode ser!  Ele balanou a cabea enfaticamente.
	Por que est dizendo isso?
	Papai amava tanto aquela mulher... Ele sim, acreditou ter sido rejeitado. Jamais a rejeitaria!
	No percebe o que aconteceu?  Katie perguntou.  A carta, com o pedido de casamento, perdeu-se no correio. Como a mulher no a recebeu, imaginou que papai no queria mais nada. Assim, no respondeu ao pedido e nosso pai deduziu, por sua vez, que estava sendo rejeitado.
	E essa moa repentinamente aparece do nada, cinquenta anos depois. Tem certeza de que ela  honesta? Ainda custo a acreditar que a outra ainda esteja procurando por papai, depois de todos esses anos.
	Na realidade, voc no quer acreditar que papai ainda sinta algo por ela depois de todos esses anos  comentou Katie.
Brian fechou o semblante e bufou.
	Voc disse  moa...
	Ela me pegou de surpresa  Katie atalhou.  Disse o nome do homem que procurava quando eu j estava saindo do quarto.
	Ento ela no sabe?
	Ainda no. Por qu?
	No lhe diga nada.
	No seja tolo!  a irm o repreendeu.  Depende de papai decidir se quer ou no ver a moa.
Brian ergueu as sobrancelhas.
	Voc sabe o que ele vai dizer.
	Ele desejar v-la.
	E claro que sim!
Katie lanou um olhar fixo e srio na direo do irmo.
	 nosso pai que decidir, Brian. Ele, no ns.
Infelizmente, Brian concluiu, Katie estava certa.
Ele se lembrar?, ponderava Amy.
Era mais uma daquelas noites difceis. Em condies normais, teria adormecido assim que encostasse a cabea no travesseiro, para despertar apenas na manh seguinte. Entretanto, com problemas para resolver, no conseguia conciliar o sono.
"E claro que ele se lembrar", tentou se convencer. 
O amor que haviam compartilhado era raro. John Reynolds jamais poderia esquecer. No podia!
Isso, claro, se ainda estivesse vivo.
Amy virou para o outro lado e ficou olhando para a janela. Era uma noite clara e vrias estrelas pontilhavam o cu. Lua cheia. O aroma salgado do oceano Atlntico penetrava no quarto.
Era como morar num barco, ela imaginou, mas sem as ondas.
Pensou em sua conversa com Katie Kirk. A grande e aconchegante casa em estilo vitoriano, transformada no hotel mais popular da regio, refletia o calor e a receptividade da mulher que a dirigia.
Katie disse que poderia ajud-la. Esperava que sim. Esperava no ter feito aquela viagem por nada. Mas sentia que a sorte estava a seu favor. Certamente algum em Porto de Burke haveria de conhecer John Reynolds, e poderia dizer-lhe algo sobre o homem.
J era tarde, quase duas da manh. Ainda assim, Amy decidiu ligar para Boston. Acendendo a lmpada de cabeceira, tirou o carto telefnico da bolsa, pois nunca conseguia lembrar o nmero, e discou.
Patti atendeu.
	Al?
	Patti?	
	Amy?
	Sim, sou eu.
	Vou lhe comprar um relgio no Natal.
	Como?
	Obviamente voc no tem relgio. Do contrrio, no ousaria ligar agora.
	Desculpe-me pelo horrio. Como est mame?
	Dormindo, e estou morrendo de inveja dela.
	Sinto muito  Amy insistiu.  S queria me assegurar de que mame est bem.
	Est tima  Patti tranquilizou a irm.  Foi ao mdico hoje. Ele disse que Marian est tima.
	 um alvio saber.
	Onde voc est, afinal?
	No Maine  Amy respondeu evasivamente. No estava preparada para contar a Patti em que "projeto" estava envolvida.  Vim fazer uma pesquisa.  Deu o telefone do Hotel Kirk.  Pode ligar para c, se precisar de mim.
	No se preocupe com mame  assegurou Patti, abafando
um bocejo.  Ela  muito mais forte do que parece.
Amy deu uma pequena risada, no muito segura de que concordava.
	D-lhe um beijo por mim, est bem?
	Est bem  Patti prometeu.  Quando pretende voltar?
	Ainda no sei  ela confessou.  Logo, espero.
Acima de tudo, Amy esperava no retornar de mos vazias.
	Estou preocupado com voc  disse Brian, ao ver o pai entrar pela porta da frente quando o relgio sobre a lareira bateu nove e meia.
John Reynolds fez uma careta para o filho.
	Oh, aposto como est muito preocupado!
Brian ficou exasperado. O pai sempre o deixava exasperado.
	Quer acredite, quer no, preocupo-me com voc.
	Vai me desculpar se eu no acreditar?  John bufou quando sentou-se em sua velha poltrona reclinvel de couro.
Brian ficou alguns segundos calado.
	Isso no vai dar certo  ele disse finalmente.
	De que est falando?
	Katie quer que voc v morar com ela e Jerry. Talvez seja uma boa ideia.
	Talvez voc tenha que se mudar  John retrucou rispidamente.  Esta  minha casa, est lembrado?
	Eu nunca me esqueo.
	No deixe a porta bater em seu traseiro quando sair, garoto  John avisou.
O velho conseguia ser irritante. Brian decidiu que era prefervel sair a ficar e enfrentar nova discusso. Portanto, foi para varanda e sentou-se na balaustrada, para contemplar a noite clara.
"Em que ponto comeamos a nos desentender?", perguntou-se pela ensima vez. A resposta, ele j sabia, embora no quisesse admitir.
Guardava ressentimento do pai por acreditar que fizera sua me sofrer. Entretanto, quando garoto, no havia ningum que adorasse mais do que John Reynolds. Eram como unha e carne. Onde papai se encontrasse, o filho estava. O que o pai fazia, ele queria imitar. Naquela poca, imaginava que nada os afastaria.
At o dia em que a me contara sobre o divrcio.
"Como pde fazer isso, papai? Como pde t-la magoado tanto, sabendo quanto o amava? Como pde nos magoar tanto?"
Brian desejaya ser mais parecido com Katie, que aceitara bem o divrcio. s vezes, desconfiava que ela enfrentara o caso bem demais. Chegava a duvidar de que ela se importava com o fato de os pais estarem juntos ou no.
Agora Katie tinha sua prpria famlia. Seus filhos, sua vida. Talvez isso fizesse alguma diferena.
Talvez, se ele formasse uma famlia, conseguisse sentir tudo de outra forma.
Pensou nas coisas que Katie lhe dissera. Ela no acreditava que o pai fosse o nico culpado pelo fim do casamento. Tambm amava o velho Reynolds e desejava que ele fosse muito feliz.
"Eu tambm o amo, de verdade", Brian disse a si mesmo. "Mas tambm amo minha me. No posso esquecer como ela ficou magoada, posso? Se eu pudesse esquecer, talvez fosse capaz de me envolver com outra mulher. Talvez pudesse fazer algum feliz... mais feliz do que Elaine, enquanto estava viva. Talvez eu pudesse acreditar no amor. Talvez pudesse acreditar num relacionamento."
Brian voltou a pensar na me e na dor que o pai lhe infringira. Como ela se sentiria ao saber que John Reynolds voltara para aquela mulher?
No fundo, porm, Katie estava certa. O pai era um homem, um adulto. Tinha o direito de tomar as prprias decises, no importava como Brian se sentisse a respeito.
"Se eu no lhe contar, tornarei pior a situao entre ns dois", decidiu.
E voltou para a sala.
	Papai, precisamos conversar.
John Reynolds no ergueu os olhos do jornal que estava lendo.
	Pai?
A nica resposta de John foi um leve ronco. Cara no sono, ainda segurando o jornal aberto.
Ora!, pensou Brian com alvio ao sair sorrateiramente da sala. Se a notcia demorara tantos anos, por que no esperar mais algumas horas?

CAPITULO III

	Este  meu irmo, Brian Reynolds  disse Katie, ao bater  porta aberta de Amy.
	Reynolds?  Amy voltou-se de sua posio  janela para fitar o homem e sua irm.  John Reynolds ...
	Nosso pai  Brian completou, entrando no quarto.
	Seu pai!  Amy meneou a cabea, confusa, e lentamente afundou na poltrona ao lado.  John Reynolds  seu pai!
Brian acenou com a cabea, confirmando.
Amy ento voltou-se para Kati, parada diante da cama.
	Por que no me disse? Eu lhe contei a histria toda aqui mesmo, neste quarto. Por que no me disse ontem  noite que John Reynolds  seu pai?
	Ela preferiu primeiro conversar comigo  Brian explicou, em defesa da irm.  Sabe como me sinto a respeito do assunto.
	Ento j sabe sobre...  comeou Amy, genuinamente surpresa.
	Sobre nosso pai e sua me?  A expresso de Brian a intrigou.  Conhecemos a histria h anos.
	Desde que ramos crianas  acrescentou Katie ao se aproximar do irmo.
	Seu pai lhes contou!
	Ele no precisou contar  atalhou Brian rispidamente.  Deduzimos tudo a partir das brigas que ele e nossa me tiveram no decorrer dos anos.
	Brigas?
Amy sentiu a cor sumir do rosto. Ao comear sua busca, a ltima coisa que imaginara era enfrentar algum tipo de hostilidade.
	Digamos que mame nunca se sentiu muito satisfeita com a situao  escarneceu Brian.
	Sua me?
	Nossa me  ele enfatizou.  A ex-esposa de John Reynolds.
Amy sentiu-se constrangida.
	O pai de vocs ainda  vivo?  indagou, tentando mudar o foco do assunto.
Katie confirmou, meneando a cabea.
	Vaso ruim no quebra.  Brian parecia arrependido por ter comparecido quele encontro.
	Ele est...  Amy interrompeu-se. No estava segura da pergunta.
	Se ele est casado agora?  Brian adivinhou.  No, no est. Nossos pais se divorciaram h anos. Creio que meu pai decidiu no cometer o mesmo erro novamente.
Amy optou por no incentivar o assunto, apesar da curiosidade.
	Eu... poderia conversar com ele?  perguntou, hesitante.
Brian e Katie se entreolharam.
	Ele estaria disposto a conversar comigo?  Ela no viera de to longe para desistir.
	Creio que sim  disse Katie.
	Papai ainda no sabe que voc est aqui.  Brian se calou durante alguns segundos.  Por que deseja tanto falar com ele, srta. Barrington? Por que agora, depois de todos esses anos?
	Eu j disse a sua irm.  Amy levantou-se da poltrona.
 Recentemente, minha me foi submetida a uma delicada cirurgia, no crebro. No sabamos se iria sobreviver.
	Sinto muito, mas o que isso tem a ver com...
	J vou chegar l  Amy assegurou.  Depois que meu pai morreu, mame me contou sobre seu pai, sobre quanto o amava...
	Se o amava tanto, por que simplesmente o ignorou, sem dar uma explicao?  Brian quis saber.
	Ela no o ignorou!
	No  essa a histria que meu pai conta.
	Ele enviou uma carta com um pedido de casamento, durante a guerra, mas o correio s a entregou esta semana. Mame a leu e ficou comovida. Todos esses anos, para saber que, afinal, no fora rejeitada. Muito ao contrrio, John queria ter se casado com ela!
	Meu pai pensa que sua me no queria se casar  declarou Brian.  Que simplesmente decidiu no responder  carta.
	Se eu pudesse falar com ele...
	Veremos, srta. Barrington  disse Brian ao dar as costas e segurar o brao de Katie para sair do quarto.
	Qual  o problema?  indagou Katie quando chegaram  grande sala do hotel.
	Nenhum  respondeu Brian, voltado para a janela.
	At parece que no o conheo!
Ele no contava com a prpria reao ao ver-se frente a frente com a filha de Marian Haskell pela primeira vez. Na verdade, no saberia definir exatamente o que sentira. Ainda estava confuso.
Imaginara a filha de Marian como uma mulher sofisticada, elegante, pomposa. Amy Barrington, no entanto, no era nada disso.
Sensual. Aquela era a palavra que melhor a descrevia. No ostensivamente sensual. Havia um encanto sutil nos cabelos loiros, longos at os ombros, nos grandes e brilhantes olhos azuis. Cheia de vida, definitivamente cheia de vida.
"Mas no  meu tipo", ele decidiu.
Entretanto, por que ainda estava intrigado?
"Ele  um homem atraente", Amy concluiria quase a contragosto naquela mesma manh. "Aquele semblante fechado no o favorece mas, ainda assim,  muito atraente, e certamente sabe que agrada s mulheres."
Parecia-se muito com o pai. Bem, ao menos parecia-se com as fotografias que ela vira de John Reynolds quando jovem. Alto, cabelos loiros, de uma beleza quase juvenil. A nica diferena era que John aparecia sempre sorrindo.
Ao que tudo indicava, Brian Reynolds no gostara dela, o que a deixara muito intrigada. Como um ser humano podia no gostar do outro  primeira vista? Amy sempre esperava algum tempo, depois de conhecer uma pessoa, para fazer esse tipo de julgamento.
Exceto no departamento romntico, claro. Ela jamais conhecera o homem ideal, nem  primeira vista, nem  segunda, nem  terceira.
"Ora, ningum  perfeito", disse a si mesma, imaginando qual seria o ponto fraco de Brian Reynolds.
	A filha de John Reynolds  a dona do hotel da cidade, e o filho... bem, o filho  outra histria  Amy contou a Patti ao confessar o verdadeiro motivo que a levara at Porto de Burke.
	O que est tentando dizer com isso?
	Teria que onhec-lo pessoalmente para entender o que digo.
	Por que no tenta explicar?
Amy respirou fundo.
	Ele  poucos anos mais velho que eu, alto, atraente... embora pudesse ser quase encantador se sorrisse de vez em quando.  loiro, do tipo que parece passar a maior parte do tempo em alto-mar. A propsito, creio que  dono de um servio de aluguel de barcos. Pelo menos foi o que ouvi no hotel.
	No  disso que estou falando, voc sabe muito bem.
	Ele age como se fosse um crime eu ter aparecido  explicou Amy.  Sinto que voar no meu pescoo assim que eu me aproximar do pai.
	Est exagerando!
	No dessa vez.
	Quer que eu conte a mame que o encontrou?  Patti indagou.
	Melhor no, ao menos, por enquanto. Espere at que eu possa v-lo. Isto , se conseguir.
	Tudo bem. Creio que  a melhor forma de lidar com a situao.
	Eu lhe contarei se conseguir passar pela guarda do castelo  Amy brincou.
	Estarei aguardando.
Depois de desligar, Amy deitou-se, a cabea apoiada nas mos, pensando. Brian Reynolds era uma figura, sem dvida. Se o pai fosse parecido com o filho, mesmo que remotamente, Marian no teria sequer olhado para ele.
Sim, Brian era atraente, mas tambm se mostrava um tipo muito desagradvel, para usar um termo muito suave.
No, John Reynolds no podia ser parecido com o filho. Se as cartas pudessem dar alguma indicao clara, o Reynolds mais velho era um homem gentil, atencioso e profundamente romntico.
Pena que ela no pudesse dizer o mesmo do filho.
Puxando a mala que deixara debaixo da cama, Amy a abriu, para tirar um mao de velhas cartas amarradas com uma fita de cetim vermelha. Desfez o lao, abriu um dos envelopes e leu, para lembrar-se do tipo de homem que John Reynolds era.
15 de dezembro de 1943 
Minha amada Marian:
No ser um feliz Natal para ns, to afastados de casa. Teremos que fazer de tudo para melhorar a situao, embora no saibamos como.
A nica coisa que me d alento nestes dias infindveis  pensar em voc e nos maravilhosos dias que passamos em Nova York, nas cartas que me envia, nas promessas do que nos aguarda quando a guerra terminar.
Estou em Paris agora. Deve ter sido um lugar maravilhoso antes da ocupao nazista. Caminhando outro dia pelos Champs-Elyses com membros da Resistncia Francesa, que luta contra o nazismo, no pude deixar de pensar em voc...
	Voc no deveria estar aqui  ele asseverou.
	E onde eu poderia estar?  ela respondeu. Tentou fit-lo nos olhos, mas o chapu de abas largas impedia que visse o rosto adorado.  No, mon chre, meu lugar  aqui, com voc, lutando a seu lado.
Amy estava vestida como Ingrid Bergman na cena final do. filme Casablanca. Reparando bem, o sonho todo era em preto e branco. Preto, branco e tons de cinza, contando a neblina. Ela jamais sonhara em preto e branco at aquela noite.
	No poderia suportar se algo lhe acontecesse  ele disse, dando-lhe as costas.  Voc j est com os documentos. Quero que parta. Hoje. Agora!
	No me pea para deix-lo, porque no posso  a mulher insistiu.
	Voc precisa partir!
Ela balanou a cabea com veemncia.
	A causa precisa de ns dois.
	Pode fazer mais por mim, e pela causa, em Washington  ele declarou, numa forma de presso.
	Est dizendo isso apenas porque deseja que eu parta!  ela protestou.
	Quero apenas que fique segura! Como poderei manter a cabea fria, fazer o que preciso fazer, se estou sempre pensando em voc, sempre me preocupando com o que possa lhe acontecer?
	Saber que estou segura se eu estiver sempre a seu lado.
		Voc , sem dvida, a mulher mais teimosa que conheci!  ele desabafou, afastando-se.
Ela o segurou pelos ombros e usou de toda a sua fora para faz-lo voltar-se.
	Foi o que aprendi com o mestre!  exclamou, arrancando-lhe o chapu para beij-lo.
S ento ela percebeu que o rosto escondido pelo chapu era o de Brian Reynolds...
Amy despertou abruptamente, aliviada por descobrir que fora apenas um sonho.
	Eu deveria saber  resmungou.  Brian Reynolds e eu no fazemos exatamente o tipo Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.
Como seria possvel, se nem gostavam um do outro?
	Bem... est disposto a permitir que ela converse com nosso pai ou no?  inquiriu Katie.
	A deciso ser dele.  Brian no conseguia fitar a irm enquanto caminhavam at a casa do pai.
Katie no escondeu a surpresa.
	Ento vai realmente lhe contar?
	Comecei a contar ontem  noite  Brian admitiu.  Ele chegou pouco aps voc ter partido. Mas comeamos outra discusso e tive que sair para esfriar a cabea. Quando voltei, papai j estava adormecido na cadeira.
	No estou gostando disso  Katie reclamou.  No gosto de saber que ele sai por muitas horas, sem que saibamos onde est.
	Eu tampouco  concordou Brian, o tom grave , mas, alm de tranc-lo no quarto e deixar um guarda na porta, no sei como impedi-lo.
Katie sorriu e balanou a cabea.
	Quer que eu esteja junto quando for contar?
	Faa como quiser  ele respondeu.  Para mim, no faz diferena.
	Ora, obrigada...
	No quis ofend-la.
	Tudo bem.
	Ele certamente desejar v-la  Brian comentou depois de um breve silncio.
	Amy?
	No. A me. Ele desejar ver Marian.
	Tem certeza? Depois de todos esses anos?
	Certeza absoluta  ele respondeu.  Rever seu grande amor perdido no passado  tudo o que ele sempre quis.
	Brian, cinquenta anos se passaram...
	No importa. Para papai, isso no importa.  Ele sorriu melancolicamente.  Na vida, s se preocupou com aquela mulher.
	No  verdade!  Katie protestou.  Ele se preocupou muito conosco! Ainda se preocupa!
	Talvez, at um certo ponto.
	Voc tambm no facilita nada!  a irm o repreendeu.
	No creio que ele alguma vez tenha tentado gostar de mim  Brian respondeu, na defensiva.
	E quando voc lhe deu alguma chance? Desde a infncia, culpa-o pela infelicidade de mame.
	Mas ele tem culpa!
	Quando um casamento no d certo, quase nunca a culpa  apenas de uma das partes  Katie observou com pacincia.
	No caso, a culpa foi dele.
	E voc ainda no sabe por que papai no tenta entend-lo! No importa quanto ele se preocupe, haver sempre essa parede entre os dois. Simplesmente porque voc no quer derrub-la.
Katie parou, deu as costas e comeou a retornar ao hotel, deixando o irmo boquiaberto.
Papai?  Brian chamou assim que entrou, mas no obteve resposta. Na verdade, no havia o menor sinal de vida na casa grande e vazia.
Aquele lugar sempre permanecera vazio, ele pensou enquanto se dirigia  cozinha para pegar um copo de gua. Sempre. Mesmo quando todos estavam em casa, sempre parecia vazio.
Brian reprisou cenas de sua infncia: o pai sentado em sua poltrona favorita, assistindo  televiso ou lendo um jornal; sua me, tricotando ou lendo um livro; ele e Katie, pr-ado-lescentes, sentados no cho, brincando com um jogo de tabuleiro, cartas ou algo parecido.
Todos no mesmo ambiente, mas nenhum calor, nenhum envolvimento afetivo, pensou tristemente. Exceto, talvez, entre os dois irmos.
Os pais podiam passar o dia inteiro no mesmo lugar sem se darem conta um do outro. E isso era o que acontecia nos bons tempos.
Nos tempos mais bicudos, quando se dirigiam um ao outro, apenas brigavam. O relacionamento sempre fora pautado por extremos: silncio glacial ou acalorada batalha verbal.
Brian pegou o copo de gua e voltou  sala, sentando-se no sof para esperar pelo pai.
"Isso vai torn-lo feliz", pensou. "Finalmente ter o que sempre quis. Voltar a ver Marian."
Provavelmente Amy Barrington no viera apenas para encontrar John Reynolds e dizer-lhe que Marian finalmente recebera a carta. No, suas pretenses no paravam ali, com certeza.
E Brian estava muito curioso a respeito daquelas pretenses. Amy Barrington era uma mulher atraente e, at onde pudera perceber, muito inteligente. Na certa tinha mais o que fazer alm de procurar por um homem por quem a me se apaixonara no passado. Era provvel que tivesse um trabalho. Mas teria um marido? Filhos, talvez?
O som da porta da frente se abrindo interrompeu os pensamentos de Brian, que ergueu os olhos para o pai.
	Onde esteve?  ele perguntou, algo rspido.
	Por acaso  meu guardio?  John tirou o bon e pendurou-o na chapeleira, perto da porta.
	No precisa ficar to ofendido! No pretendo fazer marcao cerrada em voc.
	Estou vendo...
	Est bem, talvez eu exagere s vezes  Brian concedeu. 	Mas no agora.
	No?  John fitou o filho com uma expresso curiosa. 	O que aconteceu de diferente desta vez?
	Ns estvamos tentando encontr-lo...
	Ns?
	Katie e eu.
	Por qu?
	Chegou algum  cidade, procurando por voc.
	Por mim? Isso no acontece h muito tempo!

	E uma mulher.
John sorriu.
	Isso definitivamente no acontece h muito, muito tempo.
	Estou falando srio.
	Voc sempre fala srio, filho. Este  o seu problema.
	Essa mulher  alguns anos mais jovem que eu, bonita...
John fez um gesto de desprezo.
	No pode ser comigo.
	Ela veio de Boston.
John retesou-se.
	Boston?
Brian confirmou, meneando a cabea.
	O nome dela  Amy Barrington.
	O nome no me  familiar  disse John, balanando a cabea.
	O nome da me dessa mulher  Marian Haskell Barrington.

CAPITULO IV

Marian?  John ficou desnorteado por alguns segundos. Brian confirmou.
	Ela  filha de Marian  ele disse.
	Filha...  John afundou lentamente na poltrona preferida.  Ento ela tem uma filha...
	Duas, se ouvi bem.
John balanou a cabea, ainda estonteado.
	Ento ela se casou...
	Amy Barrington contou que  viva.
	Quer dizer que ainda est viva?
	Sim, est.
	E o que trouxe a filha de Marian at Porto de Burke?  John indagou, um brilho de esperana no olhar.
Brian franziu as sobrancelhas.
	Voc.
	Eu? Mas por qu?
	A me de Marian recebeu sua carta.
John mostrou-se intrigado.
	No mandei carta alguma.
	Aquela que voc mandou h cinquenta anos  Brian esclareceu.  O pedido de casamento que enviou durante a guerra.
	Est dizendo que...
... Que ela recebeu a carta agora. Esta semana, para ser preciso.
	Esta semana!
	No  surpreendente?
John ficou calado por alguns segundos.
	Marian acabou de receber minha carta... Depois de todos esses anos... Isso explica tudo!
Brian respirou fundo.
	Isso explica por que voc no se casou com ela, por que teve que se contentar com minha me.
	Brian...
Ele ergueu a mo, fazendo o pai se calar.
	No se preocupe, no falarei mais nada  prometeu.  No adianta chorar sobre o leite derramado.
	Ela quer me ver?  John indagou, ansioso.
	Como?  Brian parecia perdido nos prprios pensamentos.
	A filha de Marian. Ela veio at aqui para me ver, no veio?
	Sim,  verdade.  Brian empertigou-se.  Creio que quer lev-lo at Marian.
John fitou o filho, surpreso.
	Quer me levar at ela?
	Marian est em Boston, recuperando-se de uma cirurgia no crebro.
John no escondeu a preocupao:
	Cirurgia no crebro?
	No conheo todos os detalhes. Falei com Amy muito rapidamente, h poucas horas.
	Ela est hospedada no hotel de Katie?
	Sim, est.
	Ento, quando posso falar com ela?
Brian hesitou por alguns instantes.
	Se quiser, pode ir agora  disse, por fim.
O rosto de John se iluminou como o de um garoto.
	Eu quero!  Saltou da poltrona e no instante seguinte j estava com o bon na mo.
	Espere um minuto! Deixe-me telefonar para Katie, para ter certeza de que Amy no saiu!
"O que me fez pensar que ele no desejaria v-la?", Brian perguntou a si mesmo.
"Estaro aqui a qualquer momento", pensou Amy.
Desde que Katie avisara que Brian traria o pai depois do jantar, Amy s fazia imaginar como ele seria, o que sentiria ao encontr-lo...
Que tipo de homem seria John Reynolds? Pelo que a me contara, certamente era algum muito especial, fora do comum.
"Certamente nada parecido com os homens que conheci", concluiu Amy.
Sua me tivera muita, muita sorte. Conhecera dois homens maravilhosos, que a amaram de verdade.
"Eu ficaria satisfeita apenas com um."
	Este  meu pai, John Reynolds  disse Brian quando o
Reynolds mais velho deu um passo adiante.
Amy tambm deu um passo adiante,  entrada da grande sala de visitas do hotel, para apertar a mo do homem que a levara a Porto de Burke.
	No pode imaginar como estou feliz por conhec-lo, sr. Reynolds!
	Por favor, pode me chamar de John.  Ele sorria de orelha a orelha.
Sorrindo, ela fez o que o homem pediu.
	John.
	Voc  muito parecida com ela.
	Desculpe-me?
	Sua me. Voc se parece com sua me. Os mesmos olhos, os mesmos lbios. Apenas o cabelo de Marian era mais escuro.
	Meu pai era loiro.
Ele meneou a cabea, obviamente encantado com Amy.
	Olhar para voc me faz reviver muitas coisas passadas. Faz-me lembrar da ltima vez que vi Marian.
	Eu sei  disse Amy, o tom gentil.  Vi fotos antigas de minha me.
	Mas ela jamais vestiria uma roupa de couro  ele acrescentou, com um sorriso, ao reparar na cala e na jaqueta de Amy.
	Meus avs morreriam se mame se vestisse assim.
	Como ela est?  John perguntou, com uma ponta de preocupao.  Meu filho disse que sofreu uma cirurgia no crebro...
Amy confirmou, meneando a cabea.
	Mas est se recuperando bem. Tenho certeza de que gostaria muito de rev-lo.
	Tambm gostaria de rev-la.
Ela sorriu.
	Esperava que voc dissesse isso.
	Brian me contou que Marian recebeu a carta esta semana. No  inacreditvel?
	Jamais me esquecerei do dia em que o carteiro a trouxe. No sabia o que fazer.
Brian, sentado numa das poltronas de couro da grande sala, no dizia nada. Apenas observava em silncio, remoendo conflitantes sentimentos.
"Papai ainda  apaixonado por aquela mulher", pensou melancolicamente. "Mame estava certa: ele jamais esqueceu Marian."
Resignou-se ao fato de que teria que levar o pai at Boston para ver aquela mulher, por mais que no gostasse da ideia. John iria de qualquer jeito, com ele ou sem ele. Se Brian se recusasse a lev-lo, s faria piorar a situao.
	O que "voc acha, meu filho?
Levou algum tempo at que ele percebesse que Amy estava lhe dirigindo a palavra.
	Como?
	Eu disse a seu pai que ser melhor partir amanh cedo 	ela explicou.
	No vejo motivo para perder tempo  acrescentou John. 	Por que no partimos neste instante?
Brian empertigou-se na poltrona.
	Oua, papai, sei que est ansioso por ver essa mulher novamente...  comeou, esperando no soar muito sarcstico.
	Mas tenho que concordar com a srta. Barrington. No h sentido em dirigir durante a noite.
	J esperei cinquenta anos  resmungou John, sem esconder que estava aborrecido com os dois.
	Ningum sabe disso melhor do que eu  Brian assegurou.
	Depois de perder todo aquele tempo, um dia a mais no ser to ruim  ponderou Amy.
	Na minha idade, os dias contam muito. As horas contam... Droga! At os minutos contam!
Mas, por fim, ele cedeu.
A Brian no restou nada alm de imaginar quais seriam os prximos acontecimentos.
Jamais sonhara com aquilo. Quem conseguiria adivinhar que o grande amor da vida de seu pai pudesse reaparecer to repentinamente?
Logo aps retornarem a casa, John subiu ao quarto, para aprontar a mala. Estava ansioso por rever Marian, o que no era surpresa nenhuma. V-la, estar com ela era tudo o que sempre quisera, mesmo durante os anos em que estivera casado com Rhonda.
"Ele teria abandonado minha me por essa mulher", refletia Brian. "Nos teria deixado a todos."
Era isso o que mais o preocupava: acreditar que o pai os poderia ter deixado a qualquer momento. Se Marian reaparecesse, John abandonaria a esposa e os filhos sem pensar duas vezes. Brian, no fundo de sua alma, ainda era o garotinho assustado que passara noites chorando at adormecer, escondendo a cabea no travesseiro, tentando no ouvir as brigas dos pais.
Seria preciso viver mais do que uma vida para esquecer aquilo.
Voc  casada?  perguntou John, virando-se para fitar Amy, que dirigia.
s primeiras horas da manh, os trs estavam a caminho de Boston. Brian planejara dirigir, seguindo o carro de Amy com o seu, pois ela no pretendia retornar a Porto de Burke. Entretanto, na hora da partida, o jipe apresentou um problema no motor. Assim, mesmo relutante, ele concordara em ir no automvel de Amy. Para a viagem de volta, alugariam um carro.
	No  Amy respondeu a John.  No mais.
	Divorciada?
	Sim.
	Tem filhos?
	Infelizmente, no.
	Gosta de crianas?
	Adoro crianas.
	Pai, no acha que est sendo um pouco intrometido?  atalhou Brian, do banco de trs.
	No h nada de errado com um pouco de curiosidade saudvel  John insistiu, voltando-se para fitar Brian.  De veria tentar isso de vez em quando, filho.
	Eu no me importo, de verdade  assegurou Amy.
	Est vendo?  John disse, triunfante.  Se ela no se importa, por que voc haveria de se importar?
	Est bem, no falo mais nada.
John voltou-se para Amy.
	Qual  sua ocupao?
	Sou escritora.
	Escreve para a televiso ou para o cinema?
	Nem uma coisa, nem outra  respondeu Amy.  Escrevo livros. Romances policiais, especificamente.
Pela primeira vez, Brian demonstrou interesse pela conversa.
	Romances policiais? Est falando srio?  indagou.
Ela confirmou, meneando a cabea.
	Gosta do gnero?
	E o gnero favorito de meu filho  disse-lhe John.
	Usa seu prprio nome para escrever?  Brian quis saber.

	No, e possivelmente por isso meu nome no lhe soa familiar  ela respondeu, acompanhando com interesse a reao embaraada de Brian.  O tipo de livro que escrevo, de acordo com meus editores,  agressivo demais. Portanto, tenho que usar um pseudnimo masculino.
	E qual ?
	Adam McCabe.
Brian no escondeu a surpresa.
	Voc  Adam McCabe?  perguntou, assombrado.
Ela riu.
	Em carne e osso.
	Creio que j li tudo o que escreveu!
	Ento quer dizer que gosta de meus livros?
	Gostar no  bem o termo  brincou John, rindo.
	Gosto muito  admitiu Brian.
	Mas?
	Mas nem poderia sonhar que Adam McCabe fosse... fosse...
	Uma mulher  Amy completou.
	Bem, sim.  E Brian intimamente acrescentou: "No apenas mulher, mas bonita e sensual".
	Isso  um elogio?  ela indagou, tentando no rir.
A viagem seria divertida. Amy realmente comeava a gostar daquele homem fechado e misterioso.
- No quis insult-la.  que... voc no escreve como uma mulher.
	E mesmo? E como uma mulher escreve?
	Bem, voc sabe...  Ele estava muito mais que embaraado.
	No, eu no sei. Conte-me.
	Mulheres tendem a ser mais romnticas, mais otimistas. Mais emotivas.
	Esse no  o meu estilo.
	Obviamente.
	Brian imaginou se aquele seria o estilo profissional ou pessoal daquela mulher intrigante.
	Voc nunca desconfiou?
	Como?
	Nunca desconfiou que Adam McCabe no fosse um homem?
	Nem por um minuto.
	Isso  fabuloso!
	?
	  ela respondeu, sorrindo.  Meu editor me deve um jantar no Lutec.
	Quer ser mais especfica?
	Meu editor sempre dizia que, mesmo que eu usasse um nome masculino, os verdadeiros leitores do gnero policial acabariam descobrindo.

	Que o autor  na verdade uma mulher?
Ela acenou afirmativamente.
	Isso mesmo.
	O que a fez decidir-se por esse tipo de literatura?
	Muito simples: eu queria escrever o tipo de livro que gosto de ler.  Ela o fitou pelo espelho retrovisor.  Aparentemente, sr. Reynolds...
	Brian  ele corrigiu.
	Brian.  Amy voltou a concentrar-se na estrada.  Aparentemente temos algo em comum.
Ele mostrou-se desconcertado.
	 o que parece.
John aproveitou a chance:
	No  um mau comeo.
	Pai...
	Ela  linda, no ?
	Pai!
Amy riu. Estava comeando a ver por que sua me amara tanto aquele homem. Mas tambm percebia por que Brian estava to frustrado.
John continuou a bombardear Amy com perguntas, quase todas sobre Marian. Nenhum dos dois percebeu que Brian apartara-se da conversa, desinteressado, sem querer saber o que estavam dizendo. Observando a paisagem rural atravs da janela, ele lentamente caiu no sono.
Cidade de Nova York. Brian e Amy estavam juntos no deque de observao no alto do edifcio Empire State. Usavam roupas do incio dos anos quarenta, Amy tinha um cachecol amarelo de seda no pescoo. O vento soprava forte, mas nenhum dos dois parecia se importar.
	No quero voltar amanh  ela sussurrou.
	Tambm no quero ir.  Ele a estreitou no peito. Mas no creio que tenhamos escolha.
Amy suspirou profundamente.
	No. Meu pai deixou muito claro que ficar est fora de questo.
	Quisera encontrar uma forma de passarmos mais tempo juntos  ele lamentou.  No demorar muito at que eu tenha que me alistar...
	Os Estados Unidos no entraram na guerra!
	Ainda no, mas entraro em pouco tempo  ele previu. No adianta esperar at o ltimo minuto para me alistar.
	yoc tem que fazer isso?
	 meu dever.
	Sim, claro.  Ela mostrou-se embaraada.   que odeio a ideia de ficarmos afastados, logo aps termos nos conhecido.
 Tambm no morro de amores pela ideia. Mas talvez no demore muito.
	Espero que no.
Naquele momento, uma lufada inesperada de vento varreu o deque, levando o cachecol de Amy para longe.
	Meu cachecol!
Os dois saram correndo atrs do pedao de seda, mas outra lufada o levou para fora dos limites do deque.
	Oh, no!
Brian a tomou nos braos e enxugou-lhe as lgrimas com beijos.
Foi naquele momento que ele despertou. Como pudera sonhar com aquilo?
Pat, chegamos!
Amy chamou a irm assim que entrou na casa, algo que sempre fazia, mesmo quando criana. Brian e John seguiram-na em silncio, esperando por uma resposta.
Patti apareceu no alto da escada.
	 voc que est berrando?
	Espero no ter acordado mame!
	Voc acordou a vizinhana toda! Quanto a mame, j estava acordada antes de sua barca chegar ao porto.
	timo!  Amy acenou.  Minha irm, Patti. Pat, estes so John Reynolds e o filho, Brian.
Patti desceu para os apertos de mos.
	Tenho tanto prazer em conhec-los!  disse, sorrindo.
Brian ficou espantado. Aquelas duas mulheres no apenas pareciam felizes em promover o reencontro da me com o velho amor como tambm mostravam-se empolgadas. Por qu? No gostavam do pai?
Aparentemente, Amy e Patti consideravam aquele reencontro uma bno. Como podiam pensar assim? A infncia delas no fora miservel, como a dele? Bem, talvez no houvessem tido uma infncia to ruim. Talvez os pais no brigassem o tempo todo.
	Brian?
Ele aprumou o corpo.
	Sim?
Patti tocou-lhe o brao.
	Amy est subindo com seu pai, para ver minha me. Quer acompanh-los?
Ele concordou e aproximou-se da escada. No sabia se deveria estar presente quando o pai ficasse frente a frente com a mulher que sempre fora um espectro em sua infncia. Entretanto, j que viera de to longe, no poderia recusar.
	J estou indo.
Ficou por ltimo quando todos subiram a escada. Amy, que ia na frente, sorriu ao abrir a porta.
	Oi, me! Veja s quem encontrei!
Marian arregalou os olhos.
	John? John Reynolds,  realmente voc?
	No conheo outro igual!  Ele se aproximou da cama.  Marian, ainda no consigo acreditar. Nunca imaginei que a veria novamente!
	E eu nem sabia se voc ainda era vivo!  ela murmurou, emocionada.
Brian apenas desejou no ter ido.
"Eles ainda se amam", Amy percebeu. "Ainda esto muito apaixonados."
S imaginava o que haveria acontecido se tivessem voltado a ver-se antes, quando o pai ainda estava vivo.
"Como voc se sentiria, me?", perguntou-se. "O que teria feito? Ficaria com papai ou partiria com John?"
Amy comeava a entender como Brian se sentia, como se sentira a vida toda. Se sua me tivesse abandonado o marido pelo homem que amava havia tempo, tinha certeza de que guardaria, contra John, os mesmos ressentimentos que Brian mantinha contra Marian.
"Eles ainda se amam", Brian percebeu.
Ao v-los juntos, confirmou que sua me tinha razo: John jamais a amara. Sempre adorara Marian. Sempre.
Mesmo agora, passados todos aqueles anos, o amor no morrera. Ainda estavam apaixonados.
Como seria amar algum daquela forma? Como seria passar a vida merecendo aquele tipo de amor? Brian desejava saber.
Desejava que sua me tivesse conhecido o mesmo tipo de sentimento.

CAPITULO V

Voc no se casou?  Amy indagou a Brian.
Estavam sentados nos degraus da varanda, bebendo ch, enquanto Patti preparava o jantar.
	Minha esposa morreu h alguns anos.
Amy queria perguntar mais, porm decidiu que no era de sua conta. Por isso ficou calada, esperando que ele desse alguma explicao.
	Fiquei com medo depois que Elaine morreu. Era uma pessoa especial. Eu acreditava que aquele tipo de sentimento s acontecia uma vez na vida e no queria terminar como meus pais.
	Foi assim to ruim... o relacionamento entre seus pais?
	Enquanto eu era criana, no foi to complicado. Mas nunca foi um relacionamento carinhoso.
	Bem, eles devem ter se amado em algum momento... Ou no teriam se casado.
	Oh, minha me amava meu pai, no tenho dvida. Para falar a verdade, creio que amou demais, considerando o tipo de casamento que teve  comentou ele com tristeza.  Casou-se com meu pai sabendo que ele ainda estava apaixonado por Marian, e que nunca superaria o trauma por ter sido rejeitado.
	Seu pai contou sobre minha me?  Amy perguntou, surpresa.
	No foi preciso. Porto de Burke era uma cidade ainda menor do que  agora. Era impossvel esconder segredos.
Deve ter sido difcil, para ela, tentar ganhar o amor de seu pai.
Minha me contou-me que era apaixonada por ele desde que menina. Sempre imaginou que um dia haveriam de se casar.
	Ento ele foi para Nova York e conheceu minha me.
Brian acenou afirmativamente.
	E depois voltou a Porto de Burke para romper com a minha.
	Mame contou que se encontravam sempre que possvel 	Amy recordou.  Disse que ficou apavorada quando ele partiu para a guerra.
	Assim como minha me.
	Mame tinha certeza de que se casariam depois que o conflito terminasse  prosseguiu Amy.  Contou como se ama vam, como se escreviam sempre...
	At que a ltima carta se extraviou  atalhou Brian.
Ela suspirou.
	Quando as cartas de seu pai pararam de chegar, minha me imaginou que ele morrera ou conhecera outra garota. Ficou com o corao partido.
	Por que Marian no tentou entrar em contato com meus avs?
	No sei. Talvez tenha preferido ficar com o benefcio da dvida. No falou muito sobre isso.
	Papai contou tudo a Katie depois que minha me partiu 	disse Brian.  Mas no a mim,nunca a mim.
	Ele com certeza sabia como voc se sentia a respeito.
	Nunca fiz segredo disso.
	Que coisas ele contou a Katie?
	Disse que seu sonho era casar-se com Marian. Que planejara fazer isso depois da guerra, quando voltasse para casa.
	Mas a carta se extraviou...
	Como Marian no respondeu ao pedido, papai ficou profundamente magoado  Brian relatou, recordando-se do que a irm lhe contara.  Imaginou que ela desistira, que no queria mais se casar.
	Ele tampouco tentou encontr-la.	
	Tem razo. S imagino como tudo seria diferente se aquela carta tivesse chegado a tempo...
Para comear, ns nem estaramos aqui. Ele ergueu o rosto, surpreso.
	Como?
	Pense! Seu pai e minha me estariam celebrando bodas ouro. Com certeza j teriam filhos, mas esses filhos no seramos ns.
	Como pode afirmar isso?
	Basta pensar na gentica!
Ele concordou.
	Creio que tem razo.
	No  assustador?
	Saber que nascemos s por causa de um erro?  mais do que assustador.
	E isso me torna uma egosta.
	Por qu?
	Por dar graas por meus pais terem ficado juntos. Por dar graas por estar viva.
Por alguns instantes, Brian ficou hipnotizado pelo brilho encantador nos olhos de Amy Barrington.
	Se  por isso, ento estamos no mesmo barco  ele confessou.
	Voc costuma imaginar como teria sido... se tivssemos ficado juntos?  Marian perguntou.
John lanou-lhe um sorriso cansado. Estavam sentados no balano da varanda, contemplando o pr-do-sol.
	No se passou um dia, nos ltimos cinquenta anos, sem que eu tivesse pensado nisso.
Ela tocou-lhe ternamente o rosto.
	Voc no foi feliz?
	No como teria sido se houvesse ficado com voc.
	Sinto muito...
	A culpa no foi sua.
	Se eu tivesse sabido...
	Se eu tivesse sabido, teria escrito novamente. Continuaria a escrever at obter resposta.
	E Rhonda?  perguntou Marian.  Voc no a amava?
Ele franziu as sobrancelhas.
	A meu prprio modo, eu a amei - respondeu, num tom baixo.  Amei-a mais do que ela imaginava, muito mais.
	Mas?  Marian sabia que ele no estava dizendo tudo.
	Mas ela no  voc  John desabafou.  Jamais consegui am-la como amei voc.
	E voc lhe deu alguma chance?
	Sim, claro! Tentei de tudo para fazer o casamento dar certo. Mas ela sabia...
	Sabia o qu?
	Que eu no conseguia parar de amar voc. Oh, eu realmente tentei. No queria continuar sofrendo daquela forma.
Marian cobriu as mos de John com as suas.
	A ltima coisa que eu desejava era faz-lo sofrer.
	Agora eu sei disso. Mas, naquela poca, s conseguia ficar pensando por que voc mudara de ideia sobre mim, sobre ns.
Marian sorriu com benevolncia.
	Parece que ambos tnhamos as mesmas dvidas.
Ele a fitou com ternura.
	Senti muita saudade.
	Tambm senti.
	Sobre o que estaro conversando?  indagou Brian.
	Sobre os velhos tempos, talvez.
	Eles realmente se amavam muito.
	Ainda se amam  Amy corrigiu.
Olhando atravs da janela para o casal mais velho, ela no teve a menor dvida.
	Acredita que ficaro juntos novamente, depois de todos esses anos?
	Estou apostando nisso.  Amy o fitou, repentinamente preocupada.  Como se sentir, se acontecer?
Ele pensou durante alguns instantes.
	No sei.	
	Acredita que poder conviver com isso?
	Creio que no tenho escolha, tenho?  a vida de meu pai. Ele dever decidir.	
	Mas como voc ir lidar com a situao?	
	Creio que simplesmente terei que aceitar...
	Ora, fico muito aliviada  disse Amy, num tom contrafeito.,
	No  nada contra sua me.
	Claro que . Voc mesmo admitiu que passou a maior parte de sua vida odiando minha me por ter arruinado a felicidade de seus pais!
	Eu era o filho de um lar desfeito! Como deveria me sentir?
Era um fato contra o qual Amy no tinha argumentos.
	Creio que eu teria me sentido da mesma forma se...
	Se seus pais tivessem se divorciado  Brian completou.
	Sim.
	Mas eles no se divorciaram.
	No.
	Deixe-me adivinhar  ele comeou.  Voc teve uma vida feliz, tpica de uma famlia de classe mdia, com pais que se davam muito bem. Voc e sua irm eram as melhores amigas. A famlia tinha um co, uma perua, um grande quintal...
	Mais ou menos isso.
	Voc nem mesmo soube sobre meu pai at seu pai morrer!
	Tem razo.
	Se minha vida tivesse sido assim enquanto eu era garoto, hoje no seria um adulto amargo. Meus pais brigavam muito. Alis, naquela casa s se falava gritando. Passei boa parte de minhas noites com o travesseiro sobre a cabea, para no ouvi-los brigar.
	Sinto muito  disse Amy, do fundo do seu corao.
	Eu tambm sinto.
	Que idade voc tinha quando eles se divorciaram?
Ele deu de ombros.
	Cerca de dez anos, talvez onze  disse, fazendo-se de indiferente.  Foi o fim do mundo para mim. Eu queria morrer.
	Posso imaginar...  Amy pensava no prprio divrcio.
	Pode?  Ele no parecia muito convencido.
	Mais do que pensa.
	Como? Imaginei que voc tivesse a famlia mais perfeita do mundo...
	 uma longa histria, e este no  um bom momento para cont-la.
		Ele  um osso duro de roer  comentou Patti.
Atravs da janela da sala, Amy observava o txi de Brian partir.
	Esse moo precisa digerir anos e anos de tristeza  murmurou com uma ponta de melancolia.
Desejava que ele no tivesse insistido em ir embora, que decidisse esperar pelo pai.
	De que est falando?
	Os pais de Brian se divorciaram h muitos anos. Aparentemente, o casamento nunca foi feliz.
	E ele culpa nossa me por isso?  Patti protestou. Foi por esse motivo que no quis ficar?
	Brian acredita que tudo teria sido diferente se John no fosse to apaixonado por nossa me, mesmo durante todos esses anos.
	Ah, sim...

	E verdade!
Patti deu de ombros.
	Ele  o tipo de pessoa que precisa sempre culpar algum.

	Contou que a me era apaixonada por John desde garotinha  Amy lembrou.  Ela sempre imaginou que termina
riam casados.
	Ento John conheceu mame  Patti concluiu.
	Exatamente.
	E rompeu com Rhonda.
	Acertou.
	Mas eles acabaram reatando...
	No final, sim. Mas s porque John imaginou que mame no o queria mais.
	 Ficou com Rhonda como um prmio de consolao.
	Sim, algo parecido.
Patti franziu a testa.
	No  um bom motivo para se casar.
Amy balanou a cabea.

	No caso deles, foi o pior motivo possvel. De acordo com Brian, nunca foram felizes juntos.
	Posso imaginar.
	Katie, irm de Brian, aparentemente lidou muito bem com a situao. Ele, por sua vez, tornou-se amargo e rancoroso. Ainda por cima teve o azar de ficar vivo da nica mulher de quem se aproximou. Desde ento, no voltou a se envolver afetivamente.
	Ele lhe contou isso?
Amy respirou fundo.
	Sim.
Patti balanou a cabea.
	Ento parece que vocs dois tm muito em comum.
Amy fitou a irm com uma expresso surpresa.
	Como pode ter certeza?
	Ora, deixe disso! No se faa de tola comigo. Voc ficou ressabiada com os homens desde que se divorciou de Parker.
	Mas no sou como Brian!
	No?  Patti no se mostrava muito convencida.
	No!
	Ento me diga: por que no saiu com nenhum outro homem desde que Parker partiu?
Amy deu de ombros, fazendo-se de indiferente.
	Apenas no encontrei ningum com quem tivesse vontade de sair.
	Vai me desculpar se eu no acreditar nisso?
	No me importo se voc acredita ou no  respondeu Amy, na defensiva.  Nem quero falar sobre isso.
	Voc precisa falar sobre isso  Patti insistiu.  Precisa aprender a lidar com seus sentimentos, antes que termine como Brian Reynolds: s e infeliz.
Amy no respondeu, ponderando se seria esse o motivo que a levava a alimentar sentimentos to fortes, e to antagnicos, com relao a Brian. Havia muito em comum entre os dois: ambos haviam sido magoados, ambos tinham medo de novos relacionamentos. Isso, ao mesmo tempo que os unia, separava-os.
Brian contou cerca de seis pessoas no vago do trem, que partiu no final da tarde. Deu graas porque no estava cheio, graas porque poderia ficar sozinho. Precisava pensar.
No momento, avaliar seus sentimentos no era uma tarefa muito fcil. Alguns deles, muitos, talvez a maior parte deles nem pudessem ser identificveis.
Era difcil no se sentir tocado pelo amor duradouro compartilhado por seu pai e Marian. V-los juntos era testemunhar um tipo rarssimo de sentimento.
Era tambm dolorosamente bvio que John Reynolds jamais amara sua ex-esposa daquela forma, jamais poderia t-la amado. Era a lembrana mais triste de sua infncia.
E havia Amy...
Como se sentia com relao a ela? No tinha certeza. Suas emoes pareciam atreladas aos sentimentos ambivalentes que alimentava com respeito a Marian.
No era justo para Amy, ele sabia. No era culpa de ningum, mas ele no conseguia sentir-se de outra forma. Toda vez que fitava Amy, via Marian, a mulher que sempre se interpusera entre seus pais. Por mais que suas reaes fossem irracionais, era exatamente daquela forma que se sentia.
Perguntou-se o que sentiria por Amy se as circunstncias fossem outras. No saberia responder, porque no tinha como separar Amy do mundo a que Marian pertencia.
Aquela mulher era muito atraente. No fazia exatamente seu tipo, mas havia algo nos gestos, na maneira como os olhos azuis brilhavam, que a tornavam muito, muito cativante.
Mas era apenas isso.
"Sim, ele  muito atraente", Amy ponderou. "E da?"
Ela ainda pensava na conversa com Patti. Sua atitude em relao ao casamento certamente no era igual  de Brian. Fora trada pelo homem que amara, em quem confiara. Um homem que chegara a faz-la crer que a amava.
Que iluso!
Brian Reynolds tambm fora casado com a mulher que amara, mas enviuvara. Alm disso, era fruto de um casamento arruinado. Como podia se sentir?
Amy no saberia dizer. No fora criada num lar infeliz, e no tinha a mnima ideia de como transcorrera a infncia de Katie e Brian. No podia sequer imaginar como teria sido viver sem o pai ou a me em casa.
Mas isso poderia ter acontecido, refletiu. Poderia ter acontecido se John houvesse reaparecido h mais tempo. Se sua me tivesse recebido a carta h cinquenta anos.
	Quer conversar?  perguntou Katie ao parar nos degraus da casa do pai.
Brian, sozinho na escurido da varanda, perdia-se em pensamentos.
	Ele ficou em Boston.
Katie sentou-se ao lado do irmo.  E isso o surpreende?
	No  ele admitiu, balanando a cabea.  Mesmo assim, desejava que papai tivesse voltado comigo.
	Ele esperou muito tempo por isso.
Brian meneou a cabea, concordando.
	Eu sei.
	Voc ainda no o perdoou, no ?
Ele se voltou para fitar a irm.
	De que est falando?
	Voc sabe do que estou falando!
	Katie...
	Mame e papai simplesmente no pertenciam um ao outro, Bri. Esto mais felizes separados.
	Poderiam ter se entendido se...
Katie balanou a cabea.
	Como podemos saber?
	Eu sei.
	No, no sabe.
	Voc nunca se importou!
Katie se contraiu como se tivesse sido fisicamente atingida.
	No  verdade!
	Voc nunca demonstrou  Brian retrucou com rispidez.
	Mas isso no significa que no tenha me importado  ela se defendeu.  Tambm no queria que eles se separassem, mas simplesmente no eram felizes juntos. Jamais seriam.
	Eles no tiveram nenhuma chance.
	Tiveram, sim: trinta anos de oportunidades. No era para dar certo.
	Mame o amava.
	Mas papai no a amava.
	Ele nunca tentou.
Katie estava comeando a perder a pacincia. Como poderia colocar um pouco de bom senso naquela cabea dura?
	O amor no  algo que possa ser forado  argumentou.
	Para falar a verdade, nem sei se ele existe!
	E  por isso que, agora, voc est infeliz e solitrio, certo? Se decidir livrar-se desse dio e dessa amargura, poder encontrar algum e ser feliz.
	Ser que nunca lhe ocorreu que eu talvez no queira?
	No queira o qu? Encontrar algum ou ser feliz?
	Os dois  ele resmungou.  Vou at a casa de barcos. Faa-me o grande favor de no me seguir.
	Acho que voc j teve muita agitao por um dia, mame  asseverou Amy enquanto ajudava Marian a se acomodar na cama.
	Tolice!  zangou-se a boa senhora, inclinando-se para a frente para que Patti pudesse afofar os travesseiros.  Estou tomando o melhor remdio que vocs poderiam ter me dado. Patti fitou Amy com um olhar maligno.
	Isso  o que veremos  disse secamente.
	Reencontrar John foi um sonho transformado em realidade  Marian continuou.  No esperava ter mais nenhuma notcia dele, muito menos rev-lo!
	Estou feliz por voc, mame  garantiu Amy , mas no pode exagerar.
	Exagerar? No via John h mais de cinquenta anos!
	Exatamente  ponderou Patti.  No adianta querer compensar cinquenta anos em algumas horas. John no vai sumir no mundo.
	Foi o que pensei quando ele partiu para a guerra, em 1942. E vejam quanto tive que esperar!
	Dessa vez no ter que esperar tanto  prometeu Amy. 	Ele ainda estar aqui quando despertar.
	John vai ficar?  perguntou Marian, o rosto iluminado pela esperana.
	Pelo menos por mais um dia.
Ela acomodou-se nos travesseiros, a expresso radiante.
	No me deixem dormir muito, est bem?
	Est bem  Amy assegurou. Depois, seguiu Patti at o corredor e fechou a porta do quarto.  Foi um dia e tanto!
	No tenho certeza de que essa tenha sido uma boa ideia 	resmungou Patti.
	Como pode disser isso? Veja como ela est feliz!
	 justamente por isso que no sei se foi uma boa ideia.
	Desde que papai morreu, mame nunca se mostrou to animada.
	Mas est exausta. E voc sabe to bem quanto eu, talvez melhor, que ela no pode ficar estressada neste momento.
	Marian ama aquele homem!  disse Amy com convico. 	Pode haver algo melhor do que isso?

CAPITULO VI

Brian sentia-se satisfeito por estar em casa. E 'tinha paz porque, pelo menos por enquanto, Amy estava em Boston.
Desde que ela chegara a Porto de Burke, sua vida se transformara num permanente de caos. Sua tranquilidade fora abalada com a repentina apario daquela mulher.
Ele at conseguia aceitar o passado do pai, mesmo que no tivesse a capacidade de entend-lo. Mas agora, por causa de Amy, o passado no era apenas um espectro. Marian Haskell tornara-se real. Algum que seu pai amava profundamente.
E a filha de Marian, para seu desespero, tambm era real demais. Isso lhe tirava a tranquilidade.
	No sei como poderei agradecer por ter vindo ver minha me  Amy disse a John quando j estavam na estrada, retornando a Porto de Burke.  Significou tanto para ela...
	Significou mais para mim. Jamais pensei que voltaria a v-la.
	Ela pensava o mesmo  disse Amy, mantendo os olhos na estrada, enquanto seguiam pela costa norte. Katie os esperando no final da tarde.  Creio que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a minha me.
	Mas...?  ele indagou.  Tenho a sensao de que est tentando dizer algo mais.
Ela meneou a cabea, confirmando.
	Estou apenas preocupada com mame. Sabe que ela foi operada para retirar um tumor benigno, mas isso no nos deixou menos preocupadas. Ela j no  uma garotinha.
	Acredita que minha presena tenha sido demais para ela?
	Receio que a tenha estressado muito  admitiu Amy.  Mas, com repouso, ficar bem rapidamente, tenho certeza.
	Marian sempre foi forte.  uma das coisas que sempre adorei.
	Como ela era?
	Oh, muito especial!  A lembrana o fez sorrir.  Cheia de vida e muito espirituosa!
	Minha me?
	Difcil acreditar, no?
	Bem... sim.
	Os anos a transformaram, mas a serenidade tambm est lhe caindo muito bem.  Ele se calou por alguns segundos, pensativo.  Quando nos conhecemos, ela estava com dezesseis anos e eu, dezenove. Os Estados Unidos ainda no haviam entrado na guerra, mas as coisas ferviam na Europa.
	Vocs se conheceram no vero em que ela ficou na casa de tia Bessie?
Ele confirmou.
	Eu tambm estava hospedado na casa de parentes. Nos conhecemos na escada-rolante da loja Macy.
Amy riu.
	Ela nunca me contou. Numa escada-rolante?
	Sim. Estvamos entalados entre uma mulher com quatro crianas gritando e um cara que mais parecia Alfred Hitchcock.
A imagem fez Amy rir mais ainda.
	Deve ter sido muito agradvel!
	E foi. Assim que conheci Marian, no prestei ateno em mais nada.
	Amor  primeira vista?
	No posso dizer que tenha sido exatamente isso, mas alguma coisa aconteceu. Foi como acender a luz de um quarto. Fez toda a diferena.
	Entendo.
	Daquele dia em diante, passvamos juntos o mximo de tempo possvel. Pelo menos tanto quanto nossas famlias permitiam.
	Ela me contou.
	Marian lhe contou sobre ns? Isso me surpreende!
	Mame falou muito sobre voc depois que papai morreu.
	Ela era feliz com seu pai?
Amy no saberia dizer se ele esperava ouvir sim ou no.
	Sempre se deram muito bem.
	Fico satisfeito por isso. Sempre desejei que Marian fosse feliz.
	Ela lhe desejava o mesmo.
John franziu o cenho.
	No me sa to bem quanto ela.
	Eu sei.
	Brian lhe contou?
Amy crispou o rosto.
	Ele no fez segredo nenhum.
John desculpou-se pela atitude do filho.
	Brian  um sujeito amargo, sempre foi. Mas receio que tenha o direito de ser assim.
	Por que diz isso?
	No deve ter sido fcil para ele  disse John, balanando a cabea.  Crescer como cresceu, ouvindo nossas brigas o tempo todo...
	Como podemos saber? Aparentemente, a situao no teve o mesmo efeito sobre Katie.
Ele concordou.
	Cada criana lida com os problemas de uma forma diferente, suponho. Katie sempre foi muito forte.
	E Brian no?
	Era um garoto sensvel. Tudo o afetava.
	Creio que ainda afeta.
	Parece que vocs dois no esto se dando muito bem...
	As vezes sim, s vezes no.  Amy desejava poder entender Brian, mas duvidava que ele prprio se entendesse.
	Isso descreve bem os relacionamentos de meu filho.
	So assim to ruins?
	Receio que sim.
	Ele jamais confiou em mulher alguma?
	Pior. Nunca confiou em si mesmo.
	Ora...
	Os sentimentos o assustam profundamente  John explicou.  Por isso ele tenta mant-los sob controle.
	Mas por que o assustam?
Ele cresceu presenciando o sofrimento da me, acreditando que emoes descontroladas trazem apenas dor. Por isso no se permite amar ningum.
"Eu sei o que  isso", Amy refletiu.
	Se est to preocupado porque ele ainda no voltou, por que o deixou l?  Katie no conseguia entender o irmo.
Os dois estavam sentados na cozinha do hotel, esperando pela chegada de Amy e John.
	O que eu deveria fazer?  ele perguntou, irritado.  Papai estava determinado a ficar. Eu no poderia amarr-lo e arrast-lo para c.
	Se quer saber, nem sei por que est to preocupado. Ele e mame esto divorciados h muito tempo. Por que um homem maduro no pode cuidar da prpria vida?
	Mame no est com ningum.
	A escolha foi dela.
	No, no foi. Ela no gosta de estar sozinha e divorciada.
	Concordo em que mame no tivesse desejado que tudo acabasse em divrcio.  Katie no disfarava a impacincia com o irmo.  Mas ela no fez esforo algum para reconstruir a vida.
	De todo modo, no gosta de estar sozinha.
	Ela no pode ter o que deseja, Bri. Ter que aceitar isso, mais cedo ou mais tarde.
	Ela no pode.
	Ento, por causa disso, papai ter que levar uma vida de recluso?
	Diga-me, Katie, alguma vez ele se preocupou com nossa me?  A amargura na voz de Brian era indisfarvel.
	Oh, tenho certeza que sim.
	Ento encontrou uma maneira muito estranha de demonstrar!  ele retrucou rispidamente.  At onde consigo me lembrar, s causou tristeza e dor a nossa me.
	Papai gostava dela, tenho certeza que sim  Katie insistiu.  Apenas nunca conseguiu am-la como mame o amou.
	Ento nem deveria ter se casado.
	Tem razo  Katie admitiu.  Mas o fato  que se casou.
	Por qu?
	Talvez tenha imaginado que algum dia chegaria a am-la. Quem sabe? Por que voc se casou com Elaine?
	No sei. Acho que a amava, mas estvamos falando de papai. Ele se contentou com um prmio de consolao.
	No  verdade!  Katie fitou o irmo fixamente por um momento.  Quando vai esquecer todo esse dio?
	No sei  ele respondeu com sinceridade.  Talvez nun ca. Eu simplesmente no sei.
	Espero que esquea. Para seu prprio bem.  triste imagin-lo infeliz at o final de seus dias.
	Quem disse que sou infeliz?
	Ningum precisa me dizer. Est estampado em seu rosto.
	Oua, mana: estou s porque quero ficar s. Gosto das coisas como so.
	Ah, sim, claro...
	 verdade. Estou melhor assim.
	Melhor?
	Sim, melhor do que qualquer um de vocs. Invariavelmente, quem demonstra sentimentos sempre termina magoado.
	E um risco que vale a pena correr  insistiu Katie.
	Tem certeza?
	Sim, Brian, sim! Voc e Elaine tiveram um casamento maravilhoso! No meu caso, Jerry e as crianas so o melhor que poderia ter me acontecido. Quando conheci meu marido, sabia que nem tudo poderia ser perfeito, que eu poderia terminar com o corao partido. Mas corri o risco e agradeo todos os dias por ter tentado.
	Mas voc no se casou com um homem que estava apaixonado por outra.
	E voc no precisa se casar com uma mulher que ainda esteja apaixonada por outro!  ela retrucou, obstinada.
	No quero me casar com ningum!
	No, no quer. Prefere ter pena de si mesmo!
	Viva a sua vida e eu vivo a minha, est bem?  disparou ele, e saiu.
	Onde est seu irmo?  Amy quis saber.
	L embaixo, nas docas. Alguns homens ligaram hoje pela manh, querendo alugar um barco.
Amy e John haviam chegado havia poucos minutos. John subira para se refrescar enquanto Amy conversava com Katie.
	Ele no queria estar aqui quando regressssemos, certo?
	No, ele no disse isso  assegurou Katie.
	Talvez no, mas eu apostaria que foi exatamente isso que planejou.
	Quem pode adivinhar o que pensa aquele cabea-dura?
Amy tinha o pressentimento de que Katie sabia de alguma coisa. Era difcil acreditar que aqueles dois fossem irmo e irm. Katie era to aberta, to amigvel, enquanto ele parecia sempre tenso e zangado!
	Como foi o reencontro?  Katie finalmente perguntou.
Amy sorriu.
	Como o clmax de um filme antigo  disse, suspirando.  Quase passei a acreditar em histrias de fadas.
	Acha que voltaro a se ver?
	No tenho a menor dvida!
	Estou feliz por eles  festejou Katie.  Papai est sozinho h muito tempo. Tempo demais, para falar a verdade. Ele precisa de algum de quem goste de verdade.
Amy sorriu, com uma ponta de desnimo.
	No acredito que seu irmo compartilhe a mesma opinio.
	Meu irmo precisa lidar com as emoes que vem acumulando no corao.
	Voc tem razo.
	Gostaria muito que ele voltasse a sair com algum.
O comentrio de Katie pegou Amy de surpresa.
	Acha que isso o ajudaria?  perguntou, tentando no sorrir, pois Katie falara com uma expresso muito sria.
	No sei. Mas sinto que o grande problema de Brian  nunca ter se apaixonado de verdade.
	Por que sente isso?
	Como ele jamais esteve perdidamente apaixonado, no pode ter nenhuma empatia pelos sentimentos de meu pai.
	Claro...  concordou Amy, meneando a cabea.
	Ele no sabe o que est perdendo.
Amy refletiu que talvez todos se sentissem melhor sem aquele tipo de experincia. Mas no foi isso o que disse:
	Pelas atitudes de Brian, duvido que ele venha a se apaixonar.
	Lamentavelmente, voc est certa.
	Ele reagiu de uma forma exagerada ao divrcio de seus pais  ponderou Amy, pensativa.
	Bri e mame so muito amigos, sempre foram. Ele sempre a protegia, desde quando era garoto. Durante as brigas, mame se trancava no quarto para chorar. Brian passava lenos de papel por debaixo da porta e implorava para que ela no chorasse mais.
	Oh!
	Ele sempre dizia que nunca voltaria a se casar porque no queria que nenhuma mulher sofresse por causa dele o que minha me sofreu.
"Assim como eu disse que no voltaria a me casar porque no desejo passar por aquilo que Parker me fez viver", Amy pensou com seus botes.
Imaginei que o encontraria aqui.
Brian ergueu os olhos ao ouvir Amy, que se aproximava calmamente, caminhando pelo deque.
	O que veio fazer?  ele indagou, o tom indiferente.
	Procurar voc, ora.
	Estou vendo  ele disse, continuando seus afazeres.  No vai dizer o que quer de mim?
	Pensei que gostaria de saber que chegamos.
Ela sentou-se na beira do deque, balanando as pernas nuas. Ficava tima de short, ele pensou, repreendendo-se intimamente por estar notando.
	Imaginava que j tivessem chegado.  Para sua paz de esprito, Brian desejou que aquela mulher simplesmente fosse embora.
	No quer saber como foi?  ela indagou, contemplando o mar.
Como Brian poderia ignorar as longas pernas  sua frente?
	Creio que posso imaginar.
Amy ficou calada por alguns segundos.
	No quer que seu pai e minha me voltem a se encontrar, estou certa?
	O problema  dele.
	No tenho a menor dvida. Mas no foi isso o que lhe perguntei.
"No olhe para mim dessa forma!", ele pensou.
	No importa o que penso.
	Para mim, importa.
"Garota, isso no vai acabar bem..."
	Por qu?
- Porque, se eles vierem a se casar, voc ser enteado de minha me. No quero que ningum a magoe com atitudes hostis  Amy respondeu sem rodeios.
	No precisa se preocupar  ele assegurou, erguendo-se.  Caso venham a se casar, provavelmente no me vero mais do que uma vez por ano.
Ela estreitou os olhos.
	Voc  um osso duro de roer, hein?
"Bravo! A ltima coisa de que preciso  que voc me trate com... simpatia!"
	Por qu? Porque no gosto da ideia de morar com meu pai e sua nova esposa?  Ele a fitou com arrogncia.  Sou adulto e tenho o direito de sentir o que estou sentindo.
	s vezes fico pensando... se voc  realmente um adulto. Age como um garoto mimado!
	"Garota..." --- Acha realmente que me importo com o que pensa a meu respeito?
	No... Se quer saber, este  o problema  ela retrucou, irritada.  No creio que voc ligue a mnima para o que os outros pensam. Para falar a verdade, acho que no se importa com ningum!
	No que eu precise me explicar a voc  ele comeou, as palavras pronunciadas com evidente amargura , mas h algumas pessoas com quem realmente me importo.  Comeou a se afastar.
	Mas no est falando de seu pai!
	Foi isso o que eu disse?
	Nem precisa dizer!
Ele voltou-se com uma expresso furiosa.
	Afinal, por que teve que vir para este lugar?  indagou rispidamente.  Estvamos muito bem at voc aparecer para reabrir as velhas feridas!
 Tem certeza?  ela indagou, uma ponta de incredulidade na voz.
O que aconteceu em seguida no fez sentido algum, nem mesmo para Brian. Ele agiu sem pensar, segurando-a pelos ombros e puxando-a do deque para seus braos. Beijou-a profundamente, mas sem agressividade, com uma paixo que o deixou to sem palavras quanto Amy.

CAPITULO VII

Ao se dar conta do que fizera, Brian ficou totalmente desconcertado. E Amy, pela primeira vez na vida, ficou sem fala.
	Que foi isso?  finalmente conseguiu perguntar.
	Um erro  ele ofegou, evitando-lhe o olhar perplexo. aFoi um grande erro.
	Voc deve ter tido um bom motivo!
	Para ter feito isso?
	Parece-me uma pergunta bastante justa!
Eles ainda no conseguiam se encarar.
	No sei por que agi assim  Brian respondeu, visivelmente nervoso.
"Como no ficar nervoso, se ainda sinto a maciez, o calor do seu corpo contra o meu?"
Para Amy, a resposta no soou convincente.
	No tem nenhuma ideia do que o levou a fazer isso?
	No.
	No tem ideia ou no pretende me contar?
Ele voltou para a popa do barco onde estivera trabalhando. Ainda no tinha coragem de fitar os grandes olhos azuis.
"Como posso contar quanto ela me perturba? No  uma ironia que algum to adorvel seja filha de Marian Haskell?"
	Deixe-me colocar a situao deste modo: se eu realmente soubesse, no diria  Brian retrucou asperamente.  Agora, se me d licena, tenho o que fazer. Quer, por favor, ir embora?
	Este  o tipo de conversa romntica que as garotas adoram ouvir!  escarneceu Amy, escondendo o nervosismo, como sempre, por detrs de uma fachada imperturbvel.
Ele a ignorou, concentrando toda a sua ateno no barco. Finalmente, Amy desistiu.
	Est bem, fique  vontade, querido  disse, fingindo uma tranquilidade que no sentia.  At mais.
Brian no respondeu.
Ela saiu do barco e subiu no deque, jurando a si mesma que no olharia para trs. Impossvel. Rompeu a jura antes de chegar ao final do caminho.
"O que h com ele?", perguntou-se.
Quando viera a Porto de Burke pela primeira vez, Brian no demonstrara o menor sinal de cordialidade at a viagem a Boston, quando se portara como um ser humano quase amigvel. Depois acontecera o surpreendente beijo e ele, no instante seguinte, tornara-se frio como uma barra de gelo.
O que estava acontecendo, afinal?
Amy voltou apressadamente ao hotel e encontrou Katie na cozinha.
 s vezes custo a crer que vocs dois sejam irmos  desabafou, irritada.
	Pelo que entendi, meu irmo fez algo que lhe tirou a pacincia  deduziu Katie, um sorriso ladino nos lbios.
	Acertou.
	O que fez agora?
Amy respirou fundo.
	Ele me beijou.
Katie parou com a faca no ar.
	Ele... o qu?
	Aquele seu irmo mal-humorado me beijou.
	Por qu?
	Se eu soubesse...
Katie ficou intrigada.
	Espere um momento. Com certeza alguma coisa estava acontecendo entre vocs. Um certo clima...
	Estvamos discutindo.
	Discutindo?  Agora Katie estava realmente confusa.
	Discutindo  repetiu Amy, meneando a cabea, em confirmao.  E ele me beijou abruptamente. Foi inesperado.
Katie refletiu durante alguns segundos.
	Ora, isso  estranho. At mesmo em se tratando de Brian.
Amy sorriu timidamente.
	Tirou as palavras de minha boca.
	A menos...
	A menos?
	Talvez ele sinta algo por voc, algo que est tentando esconder.
	Est falando de... sentimentos homicidas?  Amy arriscou.
	No. Estou falando de sentimentos romnticos.
	Ora, por favor!
	Falo srio! Meu irmo ficou muito arrasado com o divrcio de meus pais. Depois, Elaine morreu. Ele jurou que jamais voltaria a se apaixonar.
	Pois usa uma tcnica muito esquisita para afastar as mulheres, se era isso o que tinha em mente  comentou Amy, lembrando-se do calor dos lbios de Brian.
	Ele no quer passar pelo mesmo sofrimento de mame, que foi infeliz e ne conseguiu esconder a infelicidade  Katie prosseguiu, enquanto fatiava um tomate.  Brian e mame eram muito prximos. Ele absorveu todo aquele sofrimento como uma esponja.
	Eu sinto muito.
	Pelo que voc relatou, Bri agiu por impulso. Deixou os sentimentos aflorarem antes que os pudesse censurar.
	Pensei que ele estivesse tentando me afugentar. O que  totalmente desnecessrio, pois no estou planejando ficar.
Katie demonstrou surpresa.
	J est de partida?
	J fiz o que tinha a fazer. No h motivo para prolongar minha estadia.
	Tem certeza?
Amy fitou Katie com um olhar intrigado.
	Claro!
	O que sente por meu irmo?
	Por que est perguntando isso?
	 uma pergunta simples e honesta.
	Bem... no somos exatamente como Romeu e Julieta  ela ironizou.
	Isso no responde  minha pergunta.
	No pensei muito a respeito  Amy mentiu, lembrando-se do sonho que tivera com Brian.
	Tem certeza?
	Aonde est querendo chegar?
Katie deu de ombros.
	No sei. No consigo explicar.  apenas um pressentimento.
Amy riu, mas estremeceu por dentro.
	 melhor consertar os seus sensores  aconselhou.  Devem estar todos em curto-circuito.
Tolo, tolo, tolo! Brian repreendia-se o tempo todo enquanto voltava para casa. "Como pude agir to estupidamente?"
Beijar Amy Barrington fora, sem dvida nenhuma, a coisa mais estpida que fizera. Mas por que fizera aquilo?
Queria saber, precisava saber! Tirou a chave do bolso da cala jeans, destrancou a porta da frente e entrou na casa.
	Pai?
No houve resposta.
Brian imaginou que o pai estava no Galpo dos Veteranos, compartilhando sua surpreendente novidade com os velhos amigos.
"Se eu fosse um bom filho, estaria feliz por ele, no estaria?"
Viu, sobre o sof, a caixa das velhas cartas que o pai tirara do sto na noite anterior  partida para Boston. Cartas de Marian Haskell. Cartas que John esperava que ele lesse, para entender tudo. Mas como um mao de cartas velhas poderia apagar a dor de um passado?
Brian afundou no sof, massageando as tmporas. Estava com uma dor de cabea monumental. O incidente com Amy deixara-o estonteado. Fizera algo que jamais esperaria de si mesmo.
"Mas por que fiz aquilo? Est bem, ela  atraente, mas no costumo sair beijando toda mulher bonita que passa por mim."
Desejando fazer qualquer coisa que tirasse Amy Barrington e o beijo de sua mente, ele voltou a contemplar a caixa de cartas.
"Papai me pediu que eu as lesse. Creio que ho estarei invadindo sua privacidade se o fizer agora."
Pegou um dos envelopes e o abriu. A carta era de maio de 1943.
"Querido John..."
Brian sorriu. Como algum poderia chamar seu pai de querido John?
"No seja sarcstico", repreendeu-se.

Querido John:
Passei o fim de semana em Nova York, lembrando-me da ltima vez em que estivemos juntos. Recorda-se do dia em que subimos ao topo do Empire State? Lembra-se de como ventava, de como meu cachecol saiu voando? Odiei perder aquele cachecol de seda amarela porque era um presente seu, mas rimos tanto, lembra?, enquanto observvamos o vento lev-lo na direo do Central Park!
Quisera que voc estivesse aqui comigo, meu amor. Quisera que estivesse ao meu lado, em segurana. Quisera que pudssemos dar uma volta de carruagem pelo Central Park, subir ao topo do Empire State e comprar cachorros-quentes daquele vendedor engraado na Fifth Avenue.
Sua' fotografia sobre meu criado-mudo  a primeira coisa que vejo quando desperto pela manh e a ltima coisa que vejo quando vou dormir. No passa uma hora sem que pense em voc, sem que imagine onde est e o que estar fazendo. Quisera que essa guerra horrvel j tivesse terminado! Com todo o meu amor, Marian.
Brian tinha o rosto crispado enquanto dobrava a carta para devolV-la ao envelope. O cachecol amarelo voando... Sim, o mesmo cachecol de seda que voara em seu sonho com Amy! No, no era possvel... No, aquilo no podia estar acontecendo!
"Brian definitivamente tem um problema. Um grande problema."
Frustrada, Amy enfiou as roupas dentro da mala, no se importando em dobr-las.
"Esse homem no sabe o que quer! Me beija, mas diz que no sente atrao por mim. Isso faz tanto sentido quanto tudo o que ele tenha feito ou dito. Mas a pergunta : por que estou to zangada? Patti diria que sinto algo por ele. Patti seria uma louca se dissesse isso!"
Fechou o zper da mala e ento percebeu que no terminara de guardar tudo.	
"Eu tambm devo ter um problema. Um grande problema."  Que coisa mais estpida!  Brian ainda no tinha certeza do que o levara a fazer algo to tolo. Na verdade, no queria beijar Amy Barrington. No?
Katie diria que, no fundo, queria sim. Afirmaria que ele, inconscientemente, desejara beij-la o tempo todo e que agira impulsivamente num momento de fraqueza.
Algumas vezes, pensou, Katie tinha uma imaginao frtil demais.
Quanto mais distante pudesse ficar daquele lugar, melhor, Amy decidiu.
Brian Reynolds era uma complicao que no queria ter em sua vida.
Como se ele j fosse parte de sua vida!
Contemplando-se no espelho uma ltima vez antes de sair, percebeu um brilho estranho em seu olhar. Precisava ver um analista rapidamente!
"Por que Amy no volta para casa de uma vez? Por que no sai de minha vida, para que eu possa voltar ao normal?", refletia Brian.
Nunca fora o sujeito mais feliz do mundo mas, comparada ao que sentia depois de ter conhecido Amy, sua vida anterior era um verdadeiro paraso. Ou no?
Amy precisava sair rapidamente de Porto de Burke. Colocou a mala no bagageiro e deu a partida sem olhar para trs, sem dizer adeus a ningum, exceto a Katie.
Se voltasse quele lugar, esperava que fosse dali a muitos anos.
"Por que estou preocupado?", Brian se perguntou. "Se no gosto de Amy, no deveria estar preocupado, correto?"
Mas ele estava preocupado e no queria nem comear a cogitar o motivo. No momento, sua vida toda estava de pernas para o ar.
Amy, de alguma forma, sentia-se abalada.
Durante a viagem a Boston, pensou na conversa que tivera com Katie. A moa tentara convenc-la a ficar, a pelo menos pernoitar, mas Amy estava ansiosa por voltar a sua casa. Mais do que nunca.
Dizia a si mesma que o que acontecera na doca no deveria preocup-la. Se no sentia nada especial por Brian, no deveria perder o sono por causa disso. A prpria Katie a tranquilizara nesse ponto.
"Faz sentido", ponderou.
Mas o problema era que estava preocupada, e muito. Mas ainda no conseguia identificar o que a preocupava mais: o fato de Brian t-la beijado ou a forma com que ela prpria reagira. O que realmente sentia por aquele homem? Era s o que desejava saber.
No o conhecia bem o suficiente para estar apaixonada. Tinha o pressentimento de que nenhuma mulher poderia conhec-lo a esse ponto. E, se o prprio Brian no desejava que mulher alguma se apaixonasse por ele, certamente no estava disposto a amar: Nunca! Ento por que a beijara?
Era uma boa pergunta, e Amy sabia que apenas Brian poderia respond-la.
Na verdade, ele parecia um pouco perturbado. Se estivesse no pleno domnio de suas aes, nem teria se aproximado, muito menos para beij-la!
Ela no fazia ideia do que passava na cabea daquele homem reservado e misterioso. Ele prprio admitira ter sentimentos antagnicos quanto ao relacionamento de John e Marian.
Amy franziu as sobrancelhas. A nica coisa de que sua me tinha culpa era amar o pai de Brian. Se  que se podia chamar isso de culpa. Ele no podia passar o resto de seus dias culpando Marian pelo fracasso do casamento de seus pais, podia?
Mas como saber o que se passa no corao das pessoas? Como fazer Brian Reynolds sentir de outra forma? Era um sujeito estranho, muito estranho.
Ao sentir o estmago doer, Amy deu-se conta de que no comera nada desde o caf da manh e de que estava com uma fome furiosa. Parou o carro numa lanchonete.
Como era tarde, o pequeno estabelecimento estava vazio. Ela sentou-se a uma mesa de canto e desejou ardentemente que a nica garonete no estivesse dormindo.
Finalmente a mulher ergueu os olhos e a viu. Sem a mnima pressa, saiu de trs do balco e aproximou-se lentamente da mesa, sem um nico sinal de simpatia.
	Estamos quase sem comida nenhuma.  Parecia mais um aviso do que uma informao.  J est quase na hora de fechar.
	Tudo bem. No sou muito exigente.  "Estou apenas desesperada de fome", ponderou.
	 bom ouvir isso.
	Otimo.  Amy examinou o menu.  Que tal o hambrguer... No, prefiro um cheese-burger.
	No temos carne de hambrguer.
	Estou vendo. Ento um sanduche de atum?
	No temos atum.
Amy balanou a cabea, impaciente. - Ovos com bacon?
	Nem bacon, nem ovos.
	Ento vamos simplificar tudo, est bem? Como j sei o que no tem, poderia me dizer o que tem?
	Um pouco de chili, no muito, e duas fatias de torta.
	Que tipo de torta?
	Cereja e nozes.
	Que seja. Vou comer chili e uma fatia de torta.
Amy suspeitou muito da qualidade daquele chili. Mas estava com fome e comeu assim mesmo. Para compensar, a torta se revelou muito boa.
Ela saiu e a garonete foi limpar a mesa. A mulher praguejou alto quando viu o que Amy deixara no lugar da gorjeta, escrito num guardanapo de papel:
Um sorriso faz maravilhas!

CAPITULO VIII

	Voc j leu?
John olhou para a caixa de cartas aberta perto de Brian, no sof.
	Voc mesmo sugeriu que eu lesse.
	 verdade. E ento, o que achou?
	O que posso achar? As cartas so suas!
John respirou fundo e passou as mos pelos cabelos grisalhos, demonstrando frustrao.
	Esperava que, lendo as cartas, voc pudesse compreender.
	O que compreendi foi que voc amou aquela mulher, e que ela o amou, mais do que tudo no mundo.
	Acertou.
	Jamais duvidei disso. Sabia de tudo antes de ser maduro o suficiente para entender por que voc e mame brigavam sempre.
John analisou o rosto do filho por alguns instantes.
	Voc jamais vai me perdoar por isso, no ?
	No foi o que falei.
	Nem  preciso falar.
Brian hesitou por alguns instantes.
	Sim, eu posso perdoar, mas no consigo esquecer. Acredite, tenho tentado. Para valer.
John ficou calado por alguns segundos.
	Sua infncia foi assim to triste?
	O que acha?
	Eu no brigava com sua me por prazer, se  o que deseja saber. E, caso no se lembre, no era eu que comeava as discusses. Era ela.
	O que voc esperava? Ela o amava. Ficou com o corao partido porque nunca foi correspondida.
	Eu me casei com ela.
	Acha mesmo que foi suficiente?
	Tinha que ser.
	Tinha que ser...  Brian repetiu lentamente.  Tinha que ser porque voc pensou que jamais voltaria a ver a mulher que realmente queria. Estou mentindo?
	Tentei dar uma boa vida a sua me  defendeu-se John. 	Procurei ser um bom marido. Jamais a tra. Afinal, ela me deu o que tenho de mais importante: meus filhos.
	Mas no conseguiu lhe dar o que ela mais queria.
	Brian...
	Ela queria o seu amor! Ser que no entende?
John balanou a cabea.
	Eu tentei.
	Mas no conseguiu.
	A meu modo, eu a amei.
	Mas no o bastante.
John hesitou, mas apenas por um instante.
	Diga-me uma coisa, filho: pretende passar o resto de seus dias sozinho porque tem medo de terminar como sua me e eu?
	Isso passou pela minha cabea  ele admitiu.
	Ora, ora... Era o que eu temia ouvir.
	Oua, papai...
	Sua me e eu nos casamos por motivos errados. Est bem, eu me casei por motivos errados  John corrigiu-se. Mas essa  uma exceo, filho, e no a regra.
	Como posso saber? Foi esse o exemplo que tive.
	No era essa a minha inteno. Eu apenas queria que voc tivesse uma infncia feliz. Queria ter lhe poupado a dor. H muitas coisas que teria feito de outra forma, se pudesse, mas agora  tarde.
Brian ficou calado, suspeitando que o pai desejava dizer algo mais.
	Tudo o que posso dizer  que sinto muito. E peo que no julgue todos os casamentos pelo meu  prosseguiu John.
	Para aqueles que se casam por bons motivos, a vida conjugal pode ser maravilhosa.
	Parece que estou ouvindo Katie!  escarneceu Brian com um sorriso melanclico.
	Sua irm  um bom exemplo.  Um brilho iluminou o olhar do homem mais velho.  Ela e Jerry esto muito bem casados. Voc e Elaine tambm foram felizes.
	Katie e Jerry parecem personagens de novela  Brian riu. No queria falar sobre Elaine.
	Eles so felizes.  isso o que importa.
	Ningum duvida.
	Sua irm no se deixou abater pelos problemas.
	Katie sempre foi muito mais arrojada do que eu.
	Filho, h muitas coisas na vida pelas quais vale a pena correr o risco.
	Voc me conhece. Sabe que sempre optei pela segurana.
John sorriu com benevolncia.
	Nada na vida  seguro. A prpria vida  um jogo e, ironicamente, os maiores riscos so aqueles que valem mais a pena.
	Foi o que ouvi.
	Aceite o conselho de quem j passou pela experincia.
Perder o sono por causa de Brian Reynolds? Era o que faltava!
Amy revirou-se na cama, exasperada. J tentara de tudo para deixar de pensar naquele homem. Vinha tentando desde que sara de Porto de Burke. No fazia o menor sentido abalar-se tanto por causa de um simples beijo.
Afinal, no eram namorados, nem nada parecido. Namorados... Que piada!
Por que, ento, no estava rindo?
Por mais que odiasse admitir, sentia algo por Brian Reynolds. Eram sentimentos confusos, mas, ainda assim, sentimentos.
Pouco a pouco comeava a dar-se conta de que, por detrs daquela fachada de extrema amargura, ele se debatia com emoes poderosas. Era capaz de um amor profundo e genuno... se um dia chegasse a se permitir a ousadia!
"Nem sequer gostamos um do outro!" Quantas vezes Brian tentara se convencer disso desde o incidente na doca?
Incidente! Por que ela teve que aparecer de short, desafiando-o com aqueles enormes olhos azuis?
"Ele me beijou." Teria feito aquilo simplesmente para deix-la zangada? No fazia sentido. Ningum beijava ningum para provocar raiva. Ou estava errada? Talvez no, mas Brian no era como todo mundo. Certamente no como os homens que conhecera.
Nunca, ele disse a si mesmo, nunca conhecera uma mulher como Amy.
Era diferente. Que tipo de mulher apareceria do nada, para procurar por um homem que a me conhecera havia cinquenta anos? Talvez a chamassem de romntica.
"Se querem saber, acho que  louca!"
"Ele  louco", Amy decidiu. "Um verdadeiro luntico. Considera o casamento um ato criminoso. At a, tudo bem. Para falar a verdade, eu tampouco tenho uma boa opinio sobre o assunto. Mas ele considera o amor uma doena incurvel! Bem... Francamente, no  um sentimento muito saudvel, concordo."
As concluses deixavam Amy cada vez mais nervosa. No podia ser. No era possvel!
No era possvel.
No com ele.
Nunca, nem em um milho de anos, poderia ter se apaixonado por uma mulher como Amy. No, aquilo no podia estar acontecendo.
No podia se apaixonar, muito menos por ela!
Amy Barrington no era como as mulheres que conhecera, com quem sara.
Que enrascada!
"No temos nada em comum", Amy lembrou a si mesma. "Ele  conservador. Eu sou... bem, eu no sou conservadora. Ele se criou numa cidade pequena. Eu me criei em Boston, que  grande. Ele vem de um lar desfeito e eu, de um lar estvel. Ele..."
Amy interrompeu seus pensamentos. Acabava de perceber que era somente isso o que sabia a respeito de Brian Reynolds.
Exceto...
 Ela partiu?  perguntou Brian.
	Ora, parece que voc ficou surpreso!  comentou Katie, arrumando o quarto que Amy ocupara.
	Bem... sim, fiquei.
	Ela veio at aqui com uma nica finalidade. Misso cumprida, no havia mais motivo para estender a permanncia. Ou havia?
Ele fitou a irm.
	O que est insinuando?
	Voc  que deve me dizer.
	Sabe que no gosto de charadas.  O tom de Brian deixava muito claro que estava perturbado por algum motivo.
	O que aconteceu entre vocs dois?
	Entre Amy Barrington e mim? Absolutamente nada.
	No foi o que me pareceu.
	E o que, exatamente, lhe pareceu, irmzinha?
	Pareceu-me que voc estava comeando a sentir por Amy algo que no queria sentir e por isso deu um jeito de afugent-la.
Brian soltou uma gargalhada seca.
	Voc tem uma imaginao muito frtil!
	E voc parece no enxergar um palmo adiante de seu nariz!
	No h nada remota ou declaradamente romntico entre ns.
	Ento como explica o que aconteceu na doca?
Brian no teve como disfarar a surpresa.
	Voc j soube?
	A prpria Amy contou.
	O que mais ela disse?  indagou Brian, sem ter muita certeza de que desejava saber.
	Contou apenas que voc a beijou. No esperava por isso e no tem a menor ideia do motivo que o levou a faz-lo disse Katie, dando de ombros.
	Foi tudo o que ela comentou?
	Exatamente.  Katie ergueu uma sobrancelha.  Est desapontado?
	E claro que no! Por que deveria estar?
	No sei. Mas pareceu desapontado.
	No, no estou.
	Otimo. Vou acreditar.
	No est acreditando coisa alguma!
	No falei nada.
	Mas pensou.
	Agora virou adivinhador?
	Admita: voc imagina que estou tendo sentimentos romnticos por Amy.
Katie voltou-se para encarar o irmo, as mos na cintura.
	Por acaso me ouviu dizer isso?
	No.
	Ento no ponha palavras em minha boca. Est querendo uma desculpa para brigar comigo s porque se sente frustrado!
	Frustrado?
	Frustrado porque no consegue reconhecer os prprios sentimentos!
	Viu? Eu estava certo! Foi exatamente isso o que voc pensou!
	O importante  o que voc pensa. O que realmente sente por ela, Bri?
Brian no estava disposto a responder. No queria abrir aquela caixa de Pandora, principalmente para a irm.
	Brian?
	No sei o que sinto por ela  finalmente admitiu.
	No sabe?
	Ser que no est ouvindo bem, Katie?
	Como pode no saber o que sente?
	 exatamente isso que venho perguntando a mim mesmo.
	Quer conversar a respeito?
Ele balanou a cabea.
	No momento, no.
	Pode ajudar. Talvez eu consiga ver o que no est muito claro para voc.
	No.
	Por qu? No confia em mim?
	Eu confiaria minha vida a voc. Mas no se saiu muito bem como Cupido em meus envolvimentos romnticos.
	Envolvimentos romnticos? Voc chama aquilo de envolvimentos romnticos?
	Como deveria cham-los?
	De qualquer coisa, menos de romnticos. Afinal, fez de tudo para que nunca fossem romnticos.
Ele deu de ombros.
	Nenhuma daquelas mulheres era adequada para mim.
	Mas voc lhes deu alguma chance?  Katie indagou, incrdula.
Ele no respondeu.
	E quanto a Amy?
	O que tem Amy?
	Vai procurar descobrir o que sente por ela?
Brian respirou fundo.
	Prefiro no descobrir.
Katie hesitou.
	Se passar o resto da vida esperando o pior das pessoas,  exatamente isso que vai receber.
	Agora se tornou filsofa?
Por mais que considerasse intil a interferncia da irm, Brian no pde evitar colocar muitas coisas em questo. Muitas coisas.
	Na sua opinio, quando o dr. Jenkins permitir que eu volte  vida normal?  Marian perguntou  filha.
	 difcil dizer  respondeu Amy.  Voc sabe que uma cirurgia no crebro no  exatamente uma cincia exata. Por qu? Est planejando algo?
	Gostaria de visitar John  ela admitiu.
Amy franziu o semblante.
	Creio que levar algum tempo at que voc possa fazer uma viagem mais longa.
	Talvez de trem... 
	O dr. Jenkins ainda nem lhe permitiu sair de casa! O que dir viajar?
	Oh...
O desapontamento ficou estampado no rosto de Marian.
	Talvez ele possa voltar para outra visita  Amy sugeriu.
	Acha que isso seria possvel?  animou-se Marian.
	S h uma forma de saber: ligar para ele.
	Seria maravilhoso, no seria?
	O dia da Independncia est chegando  Amy mencionou.  Poderamos convid-lo para a celebrao. Que acha de um churrasco?
Marian concordou prontamente.
	Perfeito! H muito tempo no fazemos um belo churrasco.
"Fizemos um churrasco antes de voc se internar, me", ela pensou. "Voc no consegue se lembrar do passado prximo, mas pode muito bem recordar coisas que aconteceram h mais de cinquenta anos. Como  possvel?" Coisas do amor.
	Ligarei hoje  noite  Amy prometeu.
Ficou no quarto at que a me casse no sono. Ento voltou a seu escritrio, para tentar trabalhar. No conseguiu. No podia parar de pensar na promessa que fizera  me.
Tinha que convidar John para o churrasco. E, se ele aceitasse o convite, Brian teria que vir junto. Estaria preparada para v-lo novamente?
Ainda no conseguira definir com preciso o que sentia. Era como estar apaixonada pelo mdico e pelo monstro.
Apaixonada? Que piada!
Est bem. Admitia que sentia uma forte atrao por Brian. Mesmo quando ele a deixava furiosa, a atrao permanecia. Mas no podia medir um sentimento partindo do pressuposto da atrao. Afinal, no fora esse o erro que cometera com Parker?
Mas uma promessa era uma promessa. Precisava ligar para John. Se Brian viesse com o pai, trataria de preocupar-se apenas quando ele chegasse.
Contemplou o telefone. Precisava cumprir sua misso. Pensou em ligar para Katie e deixar o recado com ela. Mas seria covardia. Ficaria bvio demais que evitava falar com Brian.
Respirando fundo, pegou o fone e discou. Para seu alvio, John atendeu.
	Al?
	John?
	Sim,  ele.
	Aqui  Amy.
	Amy!  O tom impessoal mudou repentinamente.  Katie me contou que voc j voltou para casa.
	Sim, j voltei. Estou ligando de Boston.
	Como est Marian?
	Muito bem.  justamente por isso que estou ligando. Mame gostaria muito de v-lo novamente.
	Eu tambm desejo rev-la.
	Esperava que dissesse isso  ela respondeu, aliviada.  O dia da Independncia est chegando e...

CAPITULO IX

	Estou feliz por rev-lo  Amy disse a Brian. Ele no sorriu.
	No tive muita escolha.
	Sinto muito se no est satisfeito.  "Foi um grande erro. Um erro enorme."
	Katie costuma fazer uma grande celebrao no hotel.  uma das nicas oportunidades em que a famlia consegue se reunir.  "E eu no poderei participar, est vendo?"
	Eu no sabia.  "Claro que voc no perderia a oportunidade de me contar."
Ele deu de ombros.
	No tem importncia.  "Agora  muito tarde para me arrepender."
	Pelo menos seu pai parece muito feliz por estar aqui.  "Pena que voc no seja como ele."
	Ele sempre quis estar ao lado dela.
	Os dois se amam.
	No precisa me dizer isso.
	Vai tentar impedir se eles decidirem ficar juntos?
	Mesmo se eu quisesse, no poderia  ele retrucou, o tom grave.
	A pergunta : voc quer impedir?
	J nem sei o que quero.
	No pretende descobrir?
Brian forou um sorriso.
	s vezes, acho melhor nem saber.
	Por qu?
	s vezes fico imaginando como seria ter uma vida normal ele comeou.  Uma esposa, filhos...
	E ento?
	Ento me lembro do tipo de casamento que meus pais tiveram. E desanimo.
	Eu tambm j fui casada.
	O que aconteceu?
Amy respirou fundo, como se precisasse tomar flego.
	Levou algum tempo at que eu percebesse o que estava acontecendo.  Diante do olhar intrigado de Brian, explicou: 	Pensei que o casamento fosse fantstico. Estava feliz e imaginei que meu ex-marido tambm estivesse... at ele me contar que desejava o divrcio.
	Voc realmente no tinha ideia de que algo no estava bem?
	Nenhuma.
	Por que ele pediu o divrcio?
Ela sorriu tristemente.
	Tudo me leva a crer que andava inseguro. No conseguia lidar com o sucesso de Adam McCabe.
	Voc ganhava mais do que ele, certo?
	Bingo!
	Realmente foi uma atitude imatura.
	Que custou um casamento!
	Deve ter sido muito doloroso para voc.
Ela tirou uma mecha de cabelo da frente do rosto e colocou-a atrs da orelha.
	Quando nos separamos, jurei jamais me casar novamente.
	Parece que estamos no mesmo barco  ele observou.
	 o que parece. Mas ultimamente venho me perguntando se no tenho agido errado.
	Com respeito ao casamento?
	Sim. Possivelmente, nem todos os homens so como meu ex-marido. Talvez eu esteja apenas sendo tola.
	Tambm sinto isso vez por outra.
	Voc?
	Est surpresa?
	Bem, francamente, estou. Voc parecia to seguro...
	 o que venho tentando me convencer.  Brian colocou as mos nos bolsos, desconcertado.   menos complicado no ter envolvimento com ningum.
	Talvez ns dois estejamos certos.
	Talvez.
Intimamente, ambos ficaram imaginando se no terminariam se arrependendo das escolhas que haviam feito para manter a vida em paz.
	Temos que voltar  Brian disse a Amy.
Ele e John j haviam permanecido em Boston dois dias alm do planejado.
	Precisa mesmo partir?
Ele sentiu que sua presena era realmente desejada, o que o deixou surpreso.
	No posso negligenciar meu negcio. Jerry j deve estar louco da vida por eu no ter voltado no dia que prometi.
	Sim, claro.
Brian ficou calado por alguns instantes, refletindo.
	Tenho uma ideia!  disse, por fim.
	Qual?
	Por que no volta a Porto de Burke? Pelo menos por uns dias...
Ela balanou a cabea.
	No posso.
	Por que no?
	No posso deixar mame sozinha. E ela ainda no est preparada para uma viagem longa. Foi por isso que convidei voc e seu pai para virem, em vez de lev-la ao Maine.
	Sua irm no poderia fazer-lhe companhia?
Amy voltou a balanar a cabea.
	Patti tem que cuidar da famlia em Cape Cod. No pode simplesmente ficar fora por perodos muito prolongados.
	Percebo. Mas deve haver uma sada.
Ela o fitou.
	Quer realmente que eu v?
	Ser que no fui bastante claro?
	Por que deseja que eu v?
	No est evidente?
	No.
Ele mordeu o lbio.
	Ento quer que eu diga com todas as palavras?
	Sim.
	Tenho pensado no que voc disse sobre ter prometido no se casar novamente e... em ter dvidas sobre se essa  a melhor soluo. Bem, tenho tido a mesma preocupao. Ento, imaginei que talvez voc e eu... isto ... talvez fosse uma boa sada nos conhecermos melhor.
Amy ficou genuinamente surpresa.
	 o que deseja?
Ele respirou fundo e acenou afirmativamente.  .
	Sim, estou disposto a tentar.
	No posso acreditar!
	Eu tampouco!  Amy confessaria naquela tarde ao telefone.
	Voc e Brian Reynolds...  Patti mostrava-se incrdula.  As nicas pessoas neste planeta que no estavam dispostas a se envolver com ningum!
	Patti, no. estamos envolvidos.
	No  o que parece.
	Bem, estamos apenas testando o terreno.
	Ah, sim. Primeiro querem descobrir se conseguem ficar no mesmo ambiente por mais de cinco minutos, para ento decidir por algo mais complicado, como um romance.
	Muito engraado...
	Se quer saber, acho tudo muito divertido.
	Ento, o que acha?  perguntou Amy, impaciente.  Pode ficar com mame para que eu v?
	Depende. Quanto tempo pretende permanecer em Porto de Burke?
	Duas semanas.
Patti riu.
	Acha que duas semanas sero suficientes para descobrir se quer passar o resto da vida com esse homem?
	Pelo menos j terei alguma ideia, o que  muito mais do que tenho agora.
	Tudo bem  respondeu Patti.  Duas semanas.  o melhor que posso fazer. No se esquea de que tenho uma famlia esperando por mim em casa.
	Obrigada, Pat. Fico lhe devendo essa.
	Pode ter certeza de que vou cobrar no devido tempo.
O restaurante ficava em frente ao porto. Era pequeno, aconchegante, muito romntico, e, naquele momento, tambm servia como cenrio para um pequeno milagre.
Era a primeira vez que Amy Barrington e Brian Reynolds passavam mais do que uma hora juntos sem entrar em conflito.
	Quando mame me contou a respeito de John, meus sentimentos foram antagnicos  ela admitiu.  Por um lado, imaginava como seria ser amada daquela forma. Era como um conto de fadas.
	E por outro lado?
	Por outro lado, no pude deixar de me perguntar se ela amou meu pai como dizia ter amado.
	Muitas vezes fico imaginando se isso existe mesmo...
	Isso?
	O amor.
	Creio que existe.  Ela o fitou, com uma ponta de tristeza no olhar.  Apenas no sinto que seja to fcil encontr-lo.
	Para alguns de ns,  quase impossvel.
	Talvez no estejamos procurando no lugar certo. Ou talvez no estejamos nos empenhando em encontr-lo. Quem pode saber?
	Falando francamente, no tenho feito o menor esforo.
	Eu j soube.
	Quem lhe contou?  Ele sorriu e balanou a cabea. Nem  preciso perguntar.
Amy mordeu o lbio inferior e tentou no rir.
	Sua irm s deseja que voc seja feliz.
	E, para Katie, a felicidade de um homem depende de uma esposa e de pelo menos meia dzia de filhos!  Riu.
	Qual  a sua ideia de felicidade?
Brian deu de ombros.
	No sei.
	Voc deve ter alguma ideia...
	Nenhuma.
Ela o fitou, admirada. No tivera sorte no amor, mas, de resto, a vida a tratara bem.
	No consigo acreditar.
Ele retribuiu o olhar com uma expresso vulnervel, melanclica.
	No sei o que  felicidade porque jamais fui feliz.
Os dias seguintes voaram. Os dois passavam todos os momentos livres juntos: caminhando pelo porto, jantando no pequeno restaurante de frutos do mar, velejando no barco de Brian ou simplesmente conversando.
Principalmente conversando.
Brian se abriu como jamais o fizera. Falava a respeito de suas esperanas e sonhos, seus planos e interesses... assim como comentava o casamento tumultuado dos pais e o efeito profundo que o ambiente conturbado tivera no apenas sobre sua infncia, mas tambm sobre sua maturidade. Contou tambm sobre a esposa falecida, algo que jamais fizera com a me ou com Katie.
	Ser uma pena ter que voltar a Boston  admitiu Amy.  Aqui tudo  to lindo, to tranquilo...
	Ento no v embora.
	Voc sabe que no posso.
	J sei... voc precisa voltar para sua me.
	Ela precisa de mim.
	E voc? Onde ficam seus sonhos, suas necessidades?
	Pensarei nisso quando descobrir quais so meus sonhos.
	Creio que conseguiremos definir melhor quais so nossos sonhos se o fizermos juntos.
	Eu adoraria ficar, mas no posso.
	Sua irm no pode tomar conta de sua me por mais alguns dias?
	No. Tem que cuidar da vida em Cape Cod.
	E... porque ela tem a prpria vida, voc no tem direito a possuir uma?
	No  assim. Para Patti,  complicado passar muito tempo fora de casa. O marido trabalha demais e as crianas esto numa fase que requer toda a ateno.
	Ento apenas voc assume responsabilidades para com sua me?  ele concluiu, com uma ponta de ressentimento.
	Fui morar com mame por vontade prpria. Eu a amo.Queria cuidar dela, assim como ela cuidou de mim quando precisei. 
	Assim como minha me tambm cuidou de mim quando precisei  repetiu Brian, concordando.
	Ento voc entende.
Ele inclinou a cabea.
	Entendo. Apenas no quero que voc v embora.
	Ento, como est indo?  Patti quis saber, enquanto acendia a luz da cabeceira, com o fone ao ouvido.
	 difcil dizer  respondeu Amy, afundando na cama enquanto se livrava dos sapatos.
	Quer ser mais especfica?
	 o que acabei de dizer. No momento,  difcil dizer  Amy repetiu, traando distraidamente com o dedo o "K" bordado na fronha de linho branco.  Tenho conhecido um lado de Brian que considerava inexistente um ms atrs.
	Ento ele  humano?
	Muito, Patti.
	Bem, eu no estava muito confiante.
	Ele tem sido maravilhoso.
	Mas...?
	Mas ainda tem dvidas  disse Amy, afofando o travesseiro.  E ainda no consegue aceitar completamente a ideia de mame e John ficarem juntos.
	Acredita que isso possa atrapalhar a relao de vocs?
	Bem,  um problema  respondeu ela, preocupada.  Por enquanto, no creio que Brian consiga separar o que sente por mim do ressentimento que tem por mame.
	Creio que ele no mudar do dia para a noite. Afinal, passou a vida toda nesse dilema.
	 justamente disso que tenho medo.
Depois de um breve silncio, a voz de Patti soou ao telefone como se estivesse ditando uma sentena fatal:
	Voc est se apaixonando por Brian Reynolds.
Amy hesitou por alguns segundos.
	No tenho certeza.  Sentou-se na cama, quase desesperada.  Creio que sim... E muito provvel.
"Estou apaixonado por Amy."
Brian tinha quase certeza disso. Em que se metera, afinal? Massageou as tmporas, desejando que a dor de cabea passasse, mas conformado com o fato de que no cederia to facilmente. Sua cabea latejaria at que definisse seus sentimentos por Amy.
Apaixonar-se pela filha de Marian Haskell era a ltima coisa que planejara, que desejara. Mas Amy no era inimiga. Como poderia? Embora filha de Marian Haskell, nem havia nascido quando Marian e John se apaixonaram.
Ainda assim, ponderou Brian, sentindo o que sentia por Marian, como esperava ter algum futuro com Amy? Era uma equao a ser resolvida ou um risco?
"Desejo correr esse risco?"
A resposta imediata foi negativa. Passara a maior parte de sua vida adulta evitando compromissos porque no queria que a histria se repetisse. Ainda no estava preparado.
At que pudesse aceitar o relacionamento de Marian e John, no havia chances de futuro com Amy.

CAPITULO X

	Est fora de questo, papai!  Desde quando se tornou meu tutor, Brian?  indagou John, sem esconder a irritao.
	Est exagerando  o filho preveniu.  J sabe o que o dr. Eberhardt disse...
	No seja falso! No estamos falando de minha sade e voc sabe muito bem disso!
Brian ignorou o protesto do pai.
	Precisa encarar a realidade. Voc j no  mais nenhum jovem.
	No, no sou. Sou um velho!  John vociferou.  Velho o suficiente para tomar minhas prprias decises, para no deixar que meu filho as tome por mim!
	Estou apenas pensando em voc  insistiu Brian.
	A quem est tentando enganar? Est pensando apenas em si mesmo! No quer que eu e Marian fiquemos juntos, portanto inventa desculpas para impedir nossa unio. Mas isso no dar certo, est entendendo?
	Pai...
	Basta, Brian Reynolds!  John gritou.  Se eu quiser ir a Boston, vou de qualquer maneira, com ou sem voc!  Ele se ergueu e caminhou em direo  porta.
	Papai... espere!
John no respondeu. Apenas seguiu caminhando com passos firmes.
Brian conseguiria superar aquilo? Amy tinha suas dvidas. Ele vivia com aquela amargura, com aquela raiva, haviatanto tempo! No, no apenas vivera com aqueles sentimentos negativos como tambm se alimentara deles. Seria muito difcil livrar-se da armadilha da emoo.
Amy concluiu que estava lutando por uma causa perdida. Com certeza jamais iria ganhar. E essa era uma concluso muito triste.
Detestava admiti-la porque, pela primeira vez desde o divrcio, voltara a se importar com outro homem. Pensara ter conhecido a pessoa por quem podia se apaixonar e construir uma vida a dois.
Mas aquele amor no tinha futuro. Nenhum futuro, ela lamentou.
Entre todos os homens do mundo, por que escolhera amar exatamente o filho do homem que sua me idolatrara no passado... e ainda idolatrava?
Sem a menor dvida, estava lutando por uma causa perdida.
	Qual  o problema?  Amy quis saber.
Brian franziu o semblante.
	E assim to bvio que estou preocupado?
	Apenas um sinal de non poderia ser mais bvio  ela tentou brincar.
	Otimo.
	Quer conversar a respeito?
Ele balanou a cabea.
	Francamente, no.
Amy calou-se por uns instantes.
	Deixe-me adivinhar. Tem a ver com seu pai e com minha me  concluiu, esperando que estivesse errada.
Brian no negou.
	Papai quer viajar novamente a Boston.
	E voc no quer que John v.
	No  ele confessou com relutncia.
	Ainda no aceitou o relacionamento dos dois, no  mesmo?  Amy arriscou.
Ele respirou fundo.
	Tenho tentado aceitar, mas no consigo!
Ela ficou quieta durante um momento.
	Ser assim a vida toda?
	Estou tentando. Essa  a nica certeza que posso lhe oferecer.
	Precisa fazer mais do que tentar!  ela insistiu.
	Objetivamente, sei que no estou sendo nem um pouco sensato  Brian admitiu.  Mas, no fundo...
	No fundo voc ainda  aquele garotinho de dez anos que dormia chorando por causa das brigas de seus pais.
Ele no pde negar.
	Sinto muito. Mas no posso deixar de pensar que o casamento poderia ter dado certo se meu pai tivesse amado minha me, se jamais tivesse conhecido Marian  desabafou.
	Oua, voc pretende passar o resto de seus dias vivendo do passado?
	Amy, por favor...
	Brian, eu amo minha me. Quero que ela seja feliz. Se John pode lhe dar alegria, se os dois so capazes de dar felicidade um ao outro, ento desejo de todo o corao que fiquem juntos para sempre.
	E seu pai?
	Meu pai? O que tem meu pai?
	Ele no tem mais nenhuma importncia para voc?
	Como se atreve a dizer isso? Amei meu pai profundamente!  exclamou Amy, zangada com a insinuao de que no estava respeitando a memria de Charles.
	Mas certamente ele no ficou nada satisfeito com o caso de amor entre a esposa e...
	Oh, voc est muito enganado, sabia? Minha me amou muito meu pai. O casamento foi maravilhoso. Em casa, mame jamais comentou seu namoro com John... at a morte de papai. Tenho certeza de que ele nunca soube de nada.
	Ento vocs se saram muito melhor do que eu!  Brian resmungou, dando-lhe as costas e afastando-se.
	Ei, espere!  ela chamou. Aquela conversa no chegara ao fim. Para dizer a verdade, sequer estava levando a nada.
Ele no se deteve. Prosseguiu e falou, por sobre o ombro:
	Preciso falar com uma pessoa. Agora! Telefonarei quando voltar.
	Como est mame?
	O mdico disse que vem progredindo muito Patti.  Est verdadeiramente admirado.
	Otimo.
Houve uma repentina pausa na conversa.
	Amy, voc est bem?
	Claro. Por que est perguntando?
	No sei. Parece meio estranha...
	Estou cansada, s isso.
	Tem certeza?
	Creio que voltarei mais cedo para casa.
	Ora...
	De qualquer maneira, as duas semanas j esto quase terminando.
	Claro  comentou Patti cautelosamente.  Mas imaginei que voc estivesse ligando para dizer que precisava de mais tempo.
	No adiantaria nada.
	As coisas no esto bem entre voc e o Prncipe Encantado?
	As coisas no esto bem. Ponto final.
	Sinto muito!
	Eu tambm.  Amy respirou fundo.  Foi um erro. Um grande erro. E eu deveria ter percebido isso.
	Brian! Por que no ligou dizendo que viria me visitar? perguntou-lhe a me.
Ele sorriu.
	Queria fazer uma surpresa.
	Oh, foi uma surpresa e tanto!  Ela se levantou para receber o filho com um abrao e um beijo.  Vai ficar para o jantar, no vai?
	Por que acha que estou aqui?  Brian brincou.  Adoro sua comida, e voc sabe disso.
	Ora, conte outra! Como se eu no soubesse que Katherine  uma excelente cozinheira!
	No to boa quanto voc. Alm disso, ela tem muito trabalho no hotel. No precisa de mais duas bocas para alimentar.
Rhonda Reynolds sorriu.
	Pelo que estou percebendo, voc e John ainda no aprenderam as tcnicas bsicas de sobrevivncia na cozinha  con
cluiu, divertida.
	Sei abrir latas e papai sabe ferver gua  ele confessou.
	Homens!  Ela riu.
Brian ficou repentinamente srio.
	Mame, precisamos conversar.
	Que expresso mais solene! Quer dizer que no veio apenas para fazer uma visita...
Ele balanou a cabea.
	No.
	Algum problema, meu filho?
	De certa forma, sim.  Ele a levou de volta ao sof. Tinha que contar antes que perdesse a coragem.  Preciso lhe dar uma notcia. Antes que saiba por outra pessoa.
Uma sombra desceu sobre o rosto de Rhonda.
	Parece srio  ela disse, sentando-se.
	 sobre Marian Barrington. Alis, Marian Haskell.
Ela ficou intrigada.
	Isso foi h muito tempo, filho.
	Marian voltou  vida de meu pai.
	 mesmo?
	Sim, .
Brian ento revelou a histria sobre a carta extraviada, sobre o aparecimento de Amy Barrington em Porto de Burke e sobre o reencontro em Boston.
	Ele nunca deixou de am-la  comentou Rhonda quando o filho terminou.
	Eu sei.
Ela ficou calada durante alguns segundos, fitando-o profundamente.
	E voc, querido?
	O que quer saber?
	Como est se sentindo?
	Como acha que estou me sentindo?
Ela passou a mo pelo rosto do filho, numa carcia gentil.
	O que fiz a voc, meu amor?
Ele ficou confuso.
	Como assim? Voc no me fez nada.
	Engano seu. Sabe, quando seu pai e eu ainda vivamos juntos, me sentia to infeliz que no parei para pensar o que estava fazendo a voc  ela comentou com tristeza.
	Ora, mame, isso no est fazendo sentido!
	Faz sentido, sim.  Ela o fitou com uma ternura infinita.  Eu o transformei numa criana infeliz. Foi por isso que no voltou a se casar, estou certa?
Ele tentou negar, balanando a cabea.
	Se papai fosse o tipo de marido que deveria ter sido...
	No, meu amor. A culpa foi minha.
	No!
		Sim!  ela insistiu com firmeza.  Para comear, eu nem deveria ter me casado com John. Sabia que no era amada.
	Mas voc o amava.
	Sim, amava  Rhonda concordou , mas sabia que no era correspondida. Aproveitei-me da dor que seu pai sentia por ter perdido Marian... para faz-lo se casar comigo.
	Mame...
	Pensei que poderia mudar seu pai  ela prosseguiu, ignorando o protesto do filho.  Imaginava que, depois que nos casssemos, John acabaria me amando. Pensei que fosse capaz de faz-lo feliz. Foi um engano. Eu deveria ter pensado melhor.
	Por que est me dizendo isso agora?
	Porque desejo que voc seja feliz  ela respondeu, com genuna sinceridade.  Porque  um homem solitrio e sei que a culpa  minha.
	No, no .
	No tente negar! Sei muito bem que foi voc quem saiu mais ferido daquela situao.
	A culpa no foi sua.
	Sim, foi. Seu pai insistia em deix-lo fora de nossas brigas  ela contou.  Mas eu achava modos de envolv-lo, porque achava que assim teria algum tipo de apoio.
	Voc sofreu muito, mame.
	Mas isso no era desculpa para faz-lo sofrer, filho.  Rhonda se calou por alguns instantes.  Amei seu pai desde que ramos crianas. Jamais gostei de outro homem. Mas, se tivesse um pouco de juzo, no teria me casado com ele. Afinal, eu sabia que John no retribua meus sentimentos.
	Mame...
Brian respirou fundo, confuso. Precisava pensar.
	 muito bom que ele tenha encontrado Marian novamente  prosseguiu Rhonda.  Imagino que esteja muito feliz.
	Caminhando nas nuvens.  Havia uma ponta de sarcasmo na voz de Brian.
	Eles esto planejando se casar?
	Papai no disse nada, mas tenho certeza de que est pensando a respeito.
	 claro que sim.  Rhonda fitou o filho at que ele a contemplasse tambm.  No deixe que isso lhe cause amargura, querido.
	E pode me explicar como?
	Meu amor, os problemas entre mim e seu pai eram apenas nossos, no seus  ela argumentou.  E saiba de uma coisa: nem tudo foi amargura naquela unio. Na verdade, nosso casamento teve aspectos maravilhosos.
	No posso imaginar quais.
	Voc e sua irm  Rhonda respondeu, sorrindo.  Nada melhor poderia ter me acontecido.
Brian ainda pensava na conversa com a me enquanto retornava a sua casa, tarde da noite. Ironicamente, deduziu, a nica coisa sobre a qual os pais estavam totalmente de acordo era que o casamento fora um erro monumental.
"Na verdade", pensou, "eles tambm concordam em outros pontos. A meu respeito, por exemplo. Os dois acham que tenho sido um tolo. E podem estar certos."
	Papai?  chamou. Precisava ver o pai, falar com ele.
Mas no houve resposta.  Papai?
Consultou o relgio. J passava da meia-noite. Certamente John Reynolds no sara, no quela hora, pois costumava adormecer, na cama ou diante da televiso, s dez da noite.
	Papai!
De novo, nenhuma resposta.
Imaginando que ele tivesse ido para a cama, Brian subiu a escada correndo. Mas John no estava no quarto.
Ele comeou a ficar realmente preocupado.
"Papai no deve ter ido muito longe. Pense! Onde ele pode estar a essa hora da noite?"
Os dois haviam discutido sobre Marian, sobre Amy. Normalmente, John saa para esfriar a cabea quando brigavam.
"O Galpo dos Veteranos!", lembrou Brian.
Era onde o pai esfriava a cabea mais depressa. Nada melhorava mais o humor de John Reynolds do que uma noite com os amigos, relembrando passagens da guerra e bebendo um copo de cerveja. Por conta desse hbito, John tomava mais cerveja do que o dr. Eberhardt estaria disposto a permitir...
Brian pegou o telefone e discou o nmero do galpo. Ningum atendeu.
De volta  estaca zero.
Decidiu ento ligar para o hotel. Katie atendeu  ligao:
	Hotel Kirk.
	Katie,  Brian.
	Bri, o que houve?
	Papai est a?
	Papai? A essa hora? Voc, melhor do que ningum, deveria saber...
	O que no sei  onde se encontra nosso pai neste exato momento!  ele a interrompeu.  Esperava que estivesse com voc.
	No o vejo desde hoje cedo. J tentou o Galpo dos Veteranos?
	Sim, j.
	Ele no est l?
	No, no est.  Brian voltou-se para abrir a porta do closet. A velha mala do pai sumira.  Katie? Papai partiu.
	Partiu?
	Sim, saiu de casa, de Porto de Burke  explicou ele.  A mala no est aqui.
	Para onde foi?
	No  necessrio ser nenhum gnio para descobrir.
	Acredita que ele tenha ido a Boston?
	Apostaria todo o meu dinheiro nisso.
	Mas como?  espantou-se Katie.  Papai no pode ter ido sozinho. Afinal, Amy ainda est aqui!
	Tem certeza?
	Sim, mas...
	Ligue-me com o quarto dela.
	Amy j est dormindo, Bri.
	Faa o que estou pedindo, Katie!

CAPITULO XI

	Ele est com voc?  Brian inquiriu bruscamente.
	Como?  indagou Amy, confusa, esforando-se por despertar completamente.
	Meu pai. Ele est a com voc?
	Brian!  ela o repreendeu, irritada.  Por que John estaria comigo?
	Para pegar uma carona para Boston, talvez!  ele sugeriu com aspereza.
	Ora, por favor!
	Est negando que isso seja possvel?
	No estou negando nada!  Ela sentou-se na cama.  E, se quer saber, no tenho que ficar me justificando com voc ou com quem quer que seja!
	Ento est dizendo que no esteve com ele?
	No estou dizendo nada!
Ela cortou a ligao.
Menos de um minuto mais tarde, o telefone voltou a tocar. Amy agarrou-o com raiva.
	Eu j lhe disse...
	Amy?
Era Patti, do outro lado da linha.
	Patti?  ela indagou, subitamente ansiosa. Sua irm, ligando quela hora?  Mame... Ela est...?
	Mame est tima  Patti assegurou.  Apenas...
	O que houve?
	Acabei de receber uma ligao... do sr. Reynolds.
	Brian ligou para voc?
	No foi Brian. Foi o pai dele.
Amy passou a mo nervosa pelos cabelos.
	John? Onde ele est?
	No sei onde est. Mas sei onde vai estar.
	Na nossa casa?
	Foi o que ele disse.
	Quando?
	Ele no contou exatamente a que horas chegar  respondeu Patti.  Disse apenas que precisava ver mame.
	E ento?
	Eu disse a ele que mame tambm est ansiosa por rev-lo  Patti prosseguiu.  John ento assegurou que chegar o mais rpido que puder.
	Ele conversou com mame?
	No. Ela j estava dormindo.
	Estou saindo- daqui. Espero chegar o mais depressa possvel!  prometeu Amy.
	Algum problema?
	Ainda no, mas pode haver. Basta Brian chegar a Boston antes de mim.
Naquele ponto, a conversa foi interrompida por fortes batidas  porta. Amy no precisava ser nenhuma adivinha para saber de quem se tratava.
	At mais, Pat  disse  irm.
Depois de desligar, foi abrir a porta do quarto.
	Sempre costuma importunar os hspedes de sua irm no meio da noite?  protestou.
Brian parecia a ponto de explodir.
	Nenhum outro hspede causou tantos problemas como voc!  resmungou enquanto entrava no quarto.
	Seu pai no est aqui. Por que no acredita em mim?  Percebeu que Brian no ia responder e acrescentou:  Quer olhar debaixo da cama?
	Voc sabe onde ele est.
Amy o fitou, desafiando-o.
	Se eu soubesse, no diria  assegurou.
	Papai foi para Boston, no  verdade?
	No.
	Ento est a caminho de Boston  Brian concluiu enquanto examinava o quarto, olhando para todos os lados, menos para ela.
	Se tentar se acalmar e pelo menos fingir que  um ser humano cordial, tentarei ajud-lo a encontrar John.
	O que a faz pensar que necessito, ou desejo, a sua ajuda?  ele respondeu, irritado, ainda evitando o olhar de Amy.
	Ento quer me dizer por que est aqui?
Brian ignorou a pergunta.
	Creio que  mais do que evidente para onde ele est indo e por qu  comentou asperamente.
	Quanta arrogncia! Quer saber de uma coisa? Seu pai no teria que ficar correndo como uma criana desobediente se voc o tratasse como adulto e se respeitasse o direito que ele tem de fazer o que bem entende!  retrucou Amy, as sobrancelhas erguidas em sinal de desafio.
	Escute aqui, a sade de meu pai anda muito frgil!  Brian esbravejou.  E ele certamente  velho demais para essa encenao de Romeu e Julieta!
	Como pode ter certeza? Ser que  to egosta que no pode suportar a felicidade de seu pai?
	Ei, espere um momento...
	No espero, no senhor! Voc se resignou a uma vida solitria e quer condenar seu pai  mesma existncia miservel. Estou falando alguma mentira?
Brian fulminou-a com o olhar.
	Quem  voc para criticar uma atitude dessas?  indagou, furioso.  Est fazendo exatamente a mesma coisa!
	Ora, por favor...  ela comeou.
	Vai negar? Como seu casamento no deu certo, voc jamais deu abertura para que outro homem entrasse em sua vida.
	No  exatamente a mesma coisa  ela argumentou, repetindo-lhe as palavras.
	Sim,  exatamente a mesma coisal  ele insistiu, impaciente.  Voc e eu somos pessoas cticas. Nenhum dos dois realmente acredita em finais felizes.
	Pois saiba que eu acredito em finais felizes!  Amy replicou, com raiva.  No posso fazer nada se o homem que eu amo no acredita!
	O homem que voc... Como?!
Ele a fitou, boquiaberto, sem saber se deveria acreditar no que ouvira.
	Voc, seu grande tolo! Estou falando de voc!
A prpria Amy mal podia crer que revelara seus sentimentos. No conseguia acreditar que estava admitindo a verdade depois de ter prometido a si mesma no se envolver com aquele homem.
Brian, perplexo, no sabia o que falar.
	Est... est dizendo que...  balbuciou, incapaz de coordenar os pensamentos.
Amy corou violentamente.
	Foi isso mesmo que voc ouviu  respondeu, desconcertada.
	Voc... estava falando srio?
Ela evitou encar-lo.
	Quisera no ter dito nada.
Brian contraiu os msculos.
	Por qu?
	No  bvio?  Amy indagou.  Estou me sentindo uma idiota!
	No diga isso!
Ele se aproximou, segurando-a pelos ombros. Amy se desvencilhou do gesto carinhoso.
	Meus julgamentos so pssimos  reclamou.  Primeiro, um casamento miservel, e agora isso...
	Eu a amo.
	Oua, sei que isso  uma tolice...  Ela se calou e o encarou pela primeira vez.  Espere um minuto! Ouvi direito?
Ele riu e, no podendo mais resistir, abraou-a.
	Eu disse que a amo... Do fundo do corao, com toda a certeza, eu a amo.
Impulsivamente, beijou-a. Num primeiro instante, Amy ficou paralisada, sem saber o que fazer. Depois, lentamente, cedendo  magia do momento, retribuiu o beijo, extravasando toda a apaixonada ternura que sentia por aquele homem surpreendente.
Depois de alguns segundos, fitou-o, surpresa e trmula.
	Espero que no esteja brincando, Brian Reynolds.
Ele riu. De felicidade. Finalmente se sentia liberto de um passado amargo e infeliz.
	No estou. Quer outra prova?
E a beijou novamente.
	Prova?  Amy indagou ofegante, quando enfim seus lbios se afastaram.
Ele respirou fundo, para tomar coragem e para acalmar as reaes do prprio corpo.
	Uma prova do tipo... quer se casar comigo?
	Tem certeza? Isso est me parecendo bom demais para ser verdade!

	Est bem, tenho apenas uma condio  ele confessou.
Ela o fitou com desconfiana.
	E qual seria essa condio?
	Teramos que morar aqui, em Porto de Burke. Afinal, tenho meu negcio na cidade.
Ela aceitou a condio, inclinando a cabea num gesto de assentimento.
	Teremos que morar em sua casa?  perguntou, ainda estonteada com a inesperada revelao.
Brian sorriu timidamente.
	Bem, na verdade, a casa  de meu pai  admitiu.  Mas tenho certeza de que poderemos encontrar outro lugar para morar.
	Perto do mar?
	Se  isso que deseja...
	Com um quarto onde eu possa trabalhar?
	 claro!
	Com uma janela para o porto?
Brian riu gostosamente, como ela jamais o vira rir.
Voc  exigente, hein?
E ento?
Ele se rendeu.
	Se o quarto no tiver uma janela para o porto, abriremos uma.
	E quanto  minha me?
Brian sorriu.
	No creio que ter que se preocupar com sua me. Afinal, ele no ficar sozinha.
Ento voltou a beij-la e, dessa vez, Amy no precisou interromp-lo para fazer perguntas.
A estao rodoviria em South Berwick, no Maine, estava quase deserta quando Amy e Brian chegaram. Uma rpida olhadela pelos arredores no lhes revelou nada. Portanto, enquanto Brian saa para falar com os motoristas, prontos para partir, Amy mostrava uma foto de John ao atendente, no guich de passagens.
Por acaso viu este senhor?
O homem pegou a fotografia e analisou-a por alguns instantes.
	Sim  confirmou.  Eu o vi.
	Quando?  Amy perguntou, ansiosa.
	H poucas horas. Eu lhe vendi uma passagem  ele lembrou.
	Para Boston?
O homem meneou a cabea, confirmando.
	Sim, para Boston.
	A que horas o nibus partiu?
Ele consultou o relgio.
	H pouco mais de uma hora.  meia-noite e quinze.
	Qual  a prxima parada?
O homem estudou o roteiro.
	Deixe-me ver... sim, em Manchester, New Hampshire.
- New Hampshire! Por que to longe?
O homem no guich deu de ombros.
	Ele perdeu o ltimo expresso para Boston e disse que no queria esperar para pegar o prximo, que sai pela manh  informou.  Eu o coloquei num nibus que faz conexo.
 Para onde?
O atendente voltou a consultar o roteiro.
	Buffalo.
	Poderia me dizer, ento, onde ele vai trocar de nibus?
	Em Manchester  o homem respondeu.  Ele ter que esperar pelo nibus para Boston durante quarenta e cinco minutos. Pegar o que est vindo de Montpelier, Vermont.
	Muito obrigada!  ela disse, aceitando a cpia do roteiro que lhe fora oferecida.  Muitssimo obrigada!
Correu para encontrar Brian. Encontrou-o conversando com um dos motoristas, a expresso muito sria.
	Seu pai no est aqui!  anunciou, ofegante.  Pegou um nibus para Manchester. O atendente da companhia disse que, de l, ele pegar outro carro, que o levar at Boston.
Brian segurou-a pelo brao, apressado.
Vamos!
Os dois correram para o lugar onde o jipe de Brian estava estacionado. Durante a viagem, ele andou na velocidade mxima. S tirou o p do acelerador quando se aproximaram de Manchester.
	Se a polcia rodoviria nos pegar, jamais chegaremos a tempo  receou Amy.
	Pelo menos sabemos para onde papai est indo  respondeu Brian.
	Jamais duvidamos de que John Reynolds tivesse decidido viajar para Boston, no  mesmo?
	E verdade. Mas agora sabemos como ele vai chegar l.
	Talvez seja melhor no o seguirmos. Podemos esper-lo em Boston  Amy sugeriu.
Brian rejeitou a proposta.
	No  uma boa ideia.
	Por que no? Certamente  isso que ele deseja.
	H algumas coisas a respeito de meu pai que voc no sabe, querida.
Uma sombra de preocupao desceu sobre o rosto de Brian.
	Ento  melhor dizer de uma vez!
	Ele no anda nada bem. J esteve internado algumas vezes... por causa do corao.
	O problema  srio?  perguntou Amy, subitamente preocupada.
	Muito srio.  Brian permaneceu calado durante alguns instantes.  Mas papai no consegue entender, ou aceitar, que h muitas coisas que no pode mais fazer.
	E duro para qualquer pessoa aceitar que tem limitaes, por causa da idade ou por causa de doenas.
Amy pensou na me, na relutncia que tinha em depender dos outros, ainda que temporariamente.
	Papai no consegue compreender isso.
	No  para menos...
Seria mais uma fonte de tenso entre os dois, Amy concluiu, temerosa.
	Por causa do clima tenso que existe entre mim e meu pai, ele sempre considerou minhas tentativas de proteg-lo como formas de aprision-lo  Brian explicou.
	Eu sei o que  isso. Conheo o problema.
	Quanto mais tento faz-lo agir com moderao, mais ele se torna obstinado  Brian desabafou.  Est determinado a fazer apenas o que lhe der na telha. E  exatamente esse o problema.
	Talvez, se ele e mame ficassem juntos, parassem de se portar com tanta impertinncia...
Brian concordou sem pestanejar:
	Era justamente nisso que eu estava pensando.
O sorriso de Amy foi rpido e sincero.
	Ser que ouvi direito?
Brian sorriu de orelha a orelha.
	No est acreditando?
	Voc est disposto a dar um voto de confiana queles dois?
Ele segurou ternamente a mo de Amy.
	Ao conhecer a filha de Marian Haskell, creio que comecei a ver a situao com outros olhos  afirmou.  Talvez esteja comeando a perceber o que andei perdendo...
Ela o fitou, os olhos amorosos e midos:
O que ns dois estvamos perdendo  corrigiu, emocionada.
Ao chegar  estao rodoviria de Manchester, Amy foi at o balco da companhia de transportes, para certificar-se de que o nibus ainda no partira.
	Oh, s sair daqui mais tarde  assegurou o funcionrio da empresa, com um sorriso gentil.  Os passageiros estaro embarcando dentro de dez minutos.
	Obrigada.
Driblando os viajantes carregados de malas, Amy passou por filas de poltronas aparentemente desconfortveis, equipadas com pequenos aparelhos de televiso acionados por moedas, procurando por Brian e por John. Mas no encontrou nenhum dos dois.
Imaginando que eles pudessem estar perto do estacionamento dos nibus, decidiu ir para l. Mas nem precisou sair, porque Brian j vinha se aproximando, apressado.
	Alguma novidade?  ela indagou.
Ele balanou a cabea, numa negativa.
	O nibus j chegou, mas os passageiros ainda no comearam a embarcar  informou, uma sombra de preocupao no olhar.  No imagino onde meu pai possa estar, a essa altura dos acontecimentos.
Amy deu um passo para o lado, para que Brian pudesse entrar no saguo, e ento o seguiu.
	Bem, talvez ele esteja na lanchonete  sugeriu.  Talvez tenha ficado com fome...
Bingo!  o nico lugar onde no procuramos!  ele concordou.
Foi l que o encontraram, sentado sozinho a uma das mesas, terminando uma xcara de caf. Ao ver o filho, John Reynolds assumiu uma postura imediatamente defensiva.
	No adianta insistir, meu caro, porque no vou voltar  foi logo avisando.  Perdeu seu tempo vindo me buscar.
	No seja teimoso. Vim atrs de voc simplesmente porque estou preocupado, papai  Brian tentou explicar.
	Ora, conte outra!  escarneceu o homem mais velho.
	 verdade, John  Amy assegurou.  No viemos procur-lo para lev-lo de volta a Porto de Burke.
	Acho muito bom  ele resmungou.  Porque no voltarei quela cidade de modo algum, podem ter certeza!
Ela sorriu com pacincia.
	Viemos para lev-lo a Boston.
John fitou os dois com desconfiana.
	Ah, no pode ser! No esto me pregando uma pea?
Brian riu, divertido com a reao do pai.
	No, nada disso. Juro que no.
John levantou-se da mesa, um sorriso aliviado nos lbios.
	Creio que posso confiar em vocs dois. Pelo menos enquanto ela estiver por perto  concedeu, acenando com a cabea na direo de Amy, que comeou a rir.
	Obrigado pelo voto de confiana, meu obstinado pai  disse Brian num tom solene e brincalho, pegando a velha mala de John, que descansava no piso.
A meio caminho de Boston, comeou a chover. John adormecera profundamente no banco de trs.
	Seu pai est realmente exausto  Amy observou.
	Ele vem se cansando com muita facilidade  Brian comentou, o tom preocupado.  E uma pena que eu no possa faz-lo perceber isso.
	Tenho tido o mesmo problema com minha me desde a cirurgia, sabe?  ela comentou.
	Ento imagina que, ficando juntos, eles... podero se corrigir?
	Corrigir-se? Hum... Acredito que no. So dois teimosos por natureza. Mas, no mnimo, ficaro muito mais contentes, disso tenho certeza.
	Mais dispostos a se acomodar, a levar uma vida tranquila?
	Isso no posso garantir. Mas estou certa de que pelo menos ficaro muito ocupados um com o outro.
Brian considerou a ideia por mais alguns segundos. Por fim, falou:
Vale a pena tentar.  No conseguiu disfarar um sorriso. Pelo menos est dando certo comigo.
Amy ergueu uma sobrancelha, curiosa.
	 mesmo?  zombou.
	Sim, . Eu imaginava que jamais poderia me apaixonar? ele confessou.
	E o que o fez mudar de ideia?
	Voc!
Ela riu.
	Ah, no, deve haver algo mais...
	O que a faz pensar assim?
	Porque fiquei alguns dias em Porto de Burke e voc passou a maior parte do tempo tentando me expulsar de l  ela observou.
	No foi assim to ruim!  ele se defendeu.
	No, no foi  Amy concordou.  Mas, sempre que comevamos a nos aproximar, quando o clima comeava a ficar gostoso entre ns, voc se recolhia e parecia mais deter minado do que nunca a me tirar de sua vida.
	No percebeu que eu estava assustado?
	Assustado?
	Sim, assustado!
	Eu percebia que havia algo de errado com voc  ela admitiu , mas jamais imaginei que estivesse assustado. Sabe de uma coisa? Cheguei a pensar que voc tinha um irmo gmeo perverso, que o substitua nas cenas mais, digamos, pesadas...
	Muito engraado!
	Seja como for, eu no sabia mais o que fazer com voc  confessou Amy.  Seu humor se mostrava to imprevisvel quanto o tempo.
Ele riu, sem desviar os olhos da estrada.
	Como eu j disse, estava apavorado.
	Apavorado...
	Sim.
	Conte outra!
	Acha que eu no tinha o direto de me sentir assim?
	Voc? Com medo de mim? No, absolutamente.
Amy sabia o que estava se passando pela cabea de Brian, mas queria que ele prprio admitisse. Desejava que dissesse aquilo com suas prprias palavras.
	Bem, eu no estava com medo de voc, exatamente  ele comeou, com um sorriso tmido, desconcertado.
	No?
Brian virou-se ligeiramente para fit-la.
	Pelo que vejo, voc no vai me facilitar as coisas, no  mesmo?  indagou, voltando a se concentrar na estrada.
Amy sorriu.
	No, no vou. Pode acreditar nisso
Ele mordeu o canto do lbio, entre preocupado e divertido.
	Imaginei mesmo que no fosse fazer isso.
	Pois imaginou certo.
A chuva aumentou. Estava to forte que mal podiam ver a estrada.
	Acha que podemos parar em algum lugar at as condies do tempo melhorarem?  ele indagou.
	Pare de mudar de assunto, sr. Brian Reynolds!
	No  uma tentativa de fugir da conversa. E srio. Veja s como est a estrada!
	No estou vendo nada.
	Exatamente. E  a que est o problema. No podemos enxergar um palmo adiante do nariz.
	Est bem, voc me convenceu. Pare onde achar melhor.
Ele entrou no primeiro estacionamento que encontraram, diante de um grande restaurante.
	Quer entrar?  perguntou.
Amy se mostrou cautelosa.
	Conseguiremos entrar sem coletes salva-vidas?  brincou.
	Se corrermos, talvez a tempestade no consiga nos fazer grandes estragos...
John despertou naquele instante.
	O que est acontecendo? Por que paramos?
	Estamos esperando que a chuva diminua  explicou Brian, mostrando o pra-brisas.
	Vamos entrar nesse restaurante  disse John sem pestanejar.  Estou morrendo de fome.
Brian sorriu para Amy.
	Parece que voc  voto vencido, meu bem  zombou.
	No pense que esqueci de nossa conversa  ela avisou enquanto se preparavam para sair correndo.
Ele sorriu ainda mais.
	Obrigado pelo aviso.

CAPITULO XII

Parece que a chuva est melhorando  Amy comentou, contemplando a escurido atravs das janelas do restaurante.
	Acha que j podemos continuar?  Brian perguntou, enquanto terminava o caf.
	Pode ser uma boa ideia.
	O que  realmente uma boa ideia  John resmungou   levantar os traseiros dessas cadeiras e colocar o p na estrada antes que outro aguaceiro horrvel como esse nos alcance.
Dito isso, comeou a embrulhar, num guardanapo, um po doce recheado com gelia, comido pela metade. Em seguida, guardou-o no bolso da velha jaqueta de bombardeiro, que tinha desde os tempos da guerra.
Amy e Brian se entreolharam.
	Acho que entendemos a mensagem  disse Brian, sorrindo.
Ela concordou.
	No podia ser mais clara.
Brian ajudou-a a vestir a capa de gabardina. Em seguida, ergueu-se e foi at o caixa pagar a conta.
	Vou correr at o jipe para traz-lo at a porta  avisou.Assim vocs no precisam se molhar.
	Prometo que no vou reclamar  Amy assegurou.
	Partiremos ainda hoje ou ainda vo continuar a conversa? 	John indagou, visivelmente aborrecido.
Brian fez uma careta, bem-humorado.
	Est bem, papai. Ns j vamos.
	s vezes me preocupo muito com esse garoto  John comentou enquanto observava Brian correr at o jipe.
Amy riu.
	Ele j no  mais um garoto, John  observou.  Veja como cresceu.
	Brian sempre ser um garoto. Pelo menos para mim.
	Posso entender isso.  Amy sorriu docemente.  Mas por que se preocupa com ele?
	Pensei que fosse bvio.
Ela no disse nada, esperando que John Reynolds continuasse a falar.
	Ele sempre foi to ctico em relao  vida...  At ali, John no dissera nada que a surpreendesse.  Desde criana, sempre se mostrou muito infeliz.
	Brian sofreu demais com o divrcio, no foi?  indagou Amy, olhando na direo do estacionamento. Aparentemente, Brian estava tendo problemas com a partida do motor.
	Ele me recriminava o tempo todo. Dizia que no tornei Rhonda feliz, que-no mantive a famlia unida.  Uma sombra desceu sobre o olhar de John.  Jogava toda a culpa nas minhas costas.
	E isso, adicionado s brigas que ele presenciava na infncia, fizeram com que tivesse muita dificuldade em confiar, em gostar de outras pessoas, no  mesmo?  Amy comentou.
John a fitou, sem esconder a surpresa.
	Ele por acaso conversou com voc a esse respeito?
Ela confirmou.
	At certo ponto, sim.
	Mas ele normalmente no confia em ningum!  comentou o velho combatente, ainda mais perplexo.
	No duvido disso.
	Pelo jeito vocs dois devem estar se dando muito bem... Ou estou enganado?
	No, no est enganado. Pode-se dizer que nos damos bem, sim.  Amy se calou por alguns instantes, avaliando a melhor maneira de dar-lhe a notcia.  Ele me pediu em casamento, John  confidenciou finalmente.
	Ora!  Um sorriso iluminou o rosto do velho Reynolds.  Que bela surpresa!
	Eu tambm fiquei surpresa  ela admitiu.
John se mostrou intrigado.
	Como assim?
	Toda vez que eu sentia estar me aproximando de Brian, ele parecia dar uma guinada e bater em retirada. Era como... se no me quisesse. Fiquei muito confusa.
John balanou a cabea, em sinal de entendimento.
	Depois de meu divrcio e da morte de Elaine, meu filho ficou convencido de que nenhum casamento poderia funcionar direito  contou.  Nunca consegui colocar naquela cabea dura que Rhonda e eu no demos certo simplesmente porque no pertencamos um ao outro.
Amy percebeu que Brian estava vestindo o capuz. Teria que abrir o capo?
	Ele me contou que sua ex-esposa era apaixonada por voc h muito tempo  disse ela, observando Brian atravs da janela e imaginando qual seria o problema.
John Reynolds respirou fundo.
	Sim, creio que sim  respondeu calmamente.
	Tambm falou que voc e Rhonda cresceram juntos...
	 verdade. Jamais namoramos outras pessoas, sabe? Tudo transcorria tranquilamente, como as guas de um lago... at aquele vero em Nova York.
	Quando voc conheceu minha me, certo?
Ele suspirou.
	Certo, garota.
	Ento posso concluir que minha me estragou tudo, no foi?
	No, voc no pode tirar uma concluso dessas.
Ela ergueu uma sobrancelha, intrigada.
	No?
	A verdade  que jamais amei Rhonda. Ao menos no como ela me amou.  Havia uma ponta de remorso na voz de John.  Gostava muito dela, mas no estava apaixonado. At ento, nunca levara a srio a ideia de me casar com minha namoradinha de infncia.
	Ento por se casou, afinal?
Ele franziu a testa.
	 muito difcil aceitar uma rejeio  confessou.  Sua me no respondeu  minha carta, e ento fiquei completamente arrasado. Ao voltar para casa, depois da guerra, Rhonda estava me esperando. Eu sabia o que ela sentia por mim, sabia que no seria rejeitado.
	Ento decidiu casar-se.
Exatamente. Foi o que aconteceu.
	No chegou a imaginar quanto poderia mago-la?  Amy quis saber.
	Mago-la?  Ele balanou a cabea.  No, pensei apenas que estava fazendo o que ela sempre desejou.
	Mesmo sem am-la?
	Fui um bom marido  ele se defendeu.  Sempre ficava em casa quando no estava trabalhando. Jamais a tra.
	Exceto em seu corao.
	O que quer dizer com isso?
	Que voc vivia com Rhonda, mas amava outra.  Amy estreitou os olhos.  Ei, veja! Parece que Brian finalmente conseguiu dar a partida. Vamos esper-lo perto da porta?
John ficou visivelmente aliviado.
	Claro! E j no era sem tempo!
	Por que no ligaram para dizer que estavam vindo?
 Patti sussurrou no ouvido da irm assim que conseguiram ficar a ss.	
	Voc deixou bastante claro que no queria que eu ligasse no meio da noite  alegou Amy.	
Patti fez uma careta.	
	E desde quando isso a impediu de faz-lo?	
	Vamos l, garota, anime-se! Afinal de contas, estamos planejando um casamento! Para falar a verdade, dois casamentos.
	Dois casamentos? Mas de que voc est falando?
	Digamos que essa  a maneira pela qual decidi lhe contar que Brian me quer como esposa.
	Otimo... Ei, espere um momento!  Patti parou para raciocinar.  Deixe-me adivinhar. Voc, tola como sempre, disse no.
Amy fitou a irm com indignao.
	No sou assim to tola!
	Voc, Amy Barrington, disse sim?	
	Claro! O que mais eu poderia responder?
	Que maravilha!  Parou de falar e fitou a irm, com ar meio preocupado.  Bem, devo mesmo achar uma maravilha?
Amy no se conteve e riu com vontade.
	Essa  uma deciso que s voc pode tomar, Patti querida.
	Estou feliz por voc, maninha. Juro que sim  ela assegurou, com um sorriso largo.
	Voc s no imaginava que isso pudesse acontecer novamente, no  mesmo? Vamos, confesse!
	Francamente... no.
	Obrigada pelo voto de confiana  zombou Amy.
No se esquea que a conheo h muitos, muitos anos!
Amy mexeu no cabelo da irm, despenteando-o. Patti segurou-lhe as mos.
	Espere! E que histria  essa de dois casamentos? indagou, lembrando-se do que a outra acabara de dizer.
	Creio que John ir fazer o pedido a mame.
Patti ficou preocupada.
	Acha que ela est em condies de suportar uma emoo dessas?
	Creio apenas que essa  a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido  Amy assegurou, sorrindo.
	Ei, devo ficar preocupado?  Era Brian, interrompendo a conversa das duas irms.
Amy deu-lhe um beijo no rosto.
	Preocupado? Por qu?
	Vocs duas s podem estar falando de mim, escondidas neste canto  ele disse, retribuindo o beijo.
	Mas que pretenso! O que o faz pensar que estamos falando de voc?  insistiu Amy.
	Sobre quem mais poderiam estar conversando?
	Que arrogante!  Ela riu, feliz.
Patti olhou por cima do ombro de Brian.
	Onde est seu pai?  perguntou.
Ele se voltou para fit-la.
	Creio que no conseguiu esperar.
	No conseguiu esperar? Mas... esperar o qu?
Brian inclinou a cabea e deu-lhes um sorriso sincero.
	Tenho certeza de que ele subiu at o quarto de Marian. Para... fazer o pedido de casamento.
	Mas mame ainda est dormindo!  Patti fez meno de ir para a escada, mas Amy segurou-a pelo brao.
	Eles esperaram cinquenta anos por isso, Pat  argumentou.  No creio que mame se importar se perder uma hora de sono.
	Marian! Marian, acorde!  John sussurrou.
Ela comeou a se remexer na cama. Depois de piscar os olhos duas vezes, abriu-os e o contemplou.
	John!  murmurou, a voz sonolenta.  O que est fazendo aqui?
	Algo que tentei fazer h cinquenta anos  ele respondeu.
	Como? O que quer dizer?
Marian fez meno de sentar-se, mas ele a impediu, segurando-a pelos ombros.
 No  disse.  Apenas oua, est bem? Ela consentiu, meneando a cabea.
	Sim, est bem.
	Quero me casar com voc, Marian.
	Oh, John... tem certeza?
	Depois de todos esses anos? Jamais estive to seguro!  Fez uma breve pausa.  E quanto a voc? Ainda me quer?
	Sim, claro que sim! Oh, mal posso acreditar que isso esteja acontecendo. Faz tanto tempo...
Ele sorriu, satisfeito.
	Tempo demais  concordou.  Temos muitos anos a recuperar, no acha?
	Sabe de uma coisa, John Reynolds? Eu o amo. Muito mesmo.
	E eu a adoro. Profundamente, Marian. Ento, o que diz, garota?  Os olhos de John brilhavam, ansiosos.  Merecemos uma segunda chance ou no?
	Claro que merecemos!  Lgrimas inundaram os olhos de Marian.  Sim, John Reynolds, aceito ser sua esposa.
Ele se inclinou para beij-la.
	Antes tarde do que nunca, minha menina.
	Esta jaqueta... deve ter quarenta, cinquenta anos...
John deu-lhe um sorriso maroto.
	Eu a usei durante a guerra  contou.  Estava com ela quando postei a carta em que a pedi em casamento.  Alisou o couro surrado com orgulho.  Ento decidi que devia us-la para fazer isso outra vez.  como comear de novo, entende?
Marian sorriu.
	Algumas coisas jamais mudam...
	Como ns?
		Como ns  ela confirmou.  Mas, principalmente, como voc.
Ele ergueu uma sobrancelha, divertido.
	Como eu? Que quer dizer?
	Uma vez romntico, sempre romntico  Marian murmurou, num suspiro.  Mesmo depois de todos esses anos, voc no perdeu o charme.
	Bem, agora precisamos marcar o dia!  ele se empolgou.
Marian concordou prontamente.
	E qual seria a data ideal?
Ele a fitou com um sorriso travesso.
	Que tal o dia em que se comemora o fim da Segunda Grande Guerra?  sugeriu.
	Ora, no brinque  ela o repreendeu.
	No estou brincando! Oua, se pensar bem,  muito apropriado. O nico problema  que ainda est longe. A celebrao deste ano j passou, o que significa que s haver outra no prximo... Acho que teremos que escolher outra data. Porque no vejo a hora de torn-la minha esposa.
	No quero nada muito sofisticado  ela pediu ternamente.  Apenas a famlia e alguns amigos, no mximo.
	Concordo, mas...
	Mas?
	Brian e Amy podem ter outros planos  ele admitiu.
	Brian e Amy? O que eles tm a ver com nossos planos?  Marian quis saber.
	Eles tambm vo se casar.
	Ento, quando ser?  Brian perguntou.
Amy riu.
	De que est falando?
- Vamos l, voc sabe... Do nosso casamento.
Estavam andando de braos dados por Boston Common. A tarde apenas comeava, e os dois tinham acabado de almoar num restaurante prximo, depois de um sono reparador.
Um policial montado a cavalo passou por eles, alm de um grupo de crianas com suas bicicletas. Um mgico exibia-se para um pblico pequeno, mas entusiasmado, tirando um coelho branco de dentro de uma cartola.
	Voc fala como quem se refere a uma sentena de morte!  ela reclamou.
	Desculpe, meu amor  Brian respondeu.   difcil perder os velhos hbitos.
	Talvez seja melhor optarmos por um noivado longo  Amy sugeriu, depois de uma pequena pausa.
	Isso est fora de questo!  ele asseverou, preocupado.
	Pensei que fosse preferir dessa forma. Para... se acostumar aos novos hbitos.
	Bem, a resposta  no.
; Tem certeza?
	Est tentando terminar o casamento antes mesmo de dizer sim?  ele a repreendeu, bem-humorado.
	Claro que no!  ela respondeu, surpresa.  S quero que esteja seguro do que vai fazer. Apenas isso.
	Apenas isso?  "
	J compareci diante de um juiz para assinar o termo de um divrcio  argumentou Amy.  No tenho a menor vontade de fazer isso novamente.
	Nunca me divorciei, mas fui vtima da separao de meus pais. Portanto, no quero passar por isso. Quando nos casar mos, quero que seja para sempre  ele prometeu.
Amy ficou calada por alguns segundos, pensando. Embora Brian tivesse dito que a amava, embora a houvesse pedido em casamento, isso no significava que as dvidas e os medos de toda uma vida poderiam simplesmente desaparecer, como num passe de mgica. Afinal, como ele mesmo dissera, era difcil perder os velhos hbitos.
" difcil aposentar alguns velhos hbitos, e ningum sabe disso melhor do que eu", ponderou intimamente. "Mas nos amamos muito. O bastante para resolver todos os problemas."
Sorriu e, por fim, deu sua resposta:
	Que tal casar no dia dos namorados?
	De modo algum!  ele disse, balanando a cabea.  Est muito distante.
	No Ano-Novo?
	Tambm no. Ainda est longe demais.
	Natal?
	Por favor!
	Ao de Graas?
Ele balanou a cabea, num gesto negativo, e Amy ficou exasperada.
	No me diga que est querendo se casar na semana que vem!
Ele sorriu.
	Na verdade, estava pensando no prximo sbado.
	Impossvel!
	No, se fugirmos para casar.
	Fugir?!  ela exclamou.  Oua, amor, se no nos casarmos na presena de pelo menos duas testemunhas confiveis, ningum realmente acreditar que isso aconteceu.
Brian concordou.
	, acho que voc pode estar certa.
	Com isso em mente  ela prosseguiu , gostaria de sugerir uma cerimnia simples e elegante, com nossas famlias e talvez alguns poucos amigos.
	Para mim, est timo.
	Que acha de uma cerimnia  luz de velas?
	Acho que posso aceitar isso.
	Usarei um vestido branco, provavelmente de seda, com um pequeno vu...
	Isso  permitido?
Ela o cutucou, fingindo-se ofendida.
 Seu tolo!
Brian riu e desviou-se de uma nova cotovelada.
	Voc mesma pediu isso.
 Sim? Ento  melhor se conformar porque, de qualquer maneira, ter que usar um smoking, meu bem.
	De modo algum!  Ele a imobilizou com um abrao.  Por nada neste mundo voc me colocar dentro daquela roupa de pinguim.
	No?  Amy o desafiou.  Quanto quer apostar, corao?
	O quanto voc quiser, paixo  ele respondeu, enfrentando o desafio.
	Quanto est disposto a perder?  ela prosseguiu.
	Era exatamente o que eu queria lhe perguntar.
	Cinqentinha?
Ele riu.
	Voc no me parece muito confiante.
	Ento cem.
	Estava pensando em algo um pouco mais interessante  ele disse com um sorriso ladino.
	O qu, por exemplo?  Amy o fitou, desconfiada.
	Oh, ainda no sei...
	No se faa de tolo, Brian Reynolds  ela avisou.  Sei que est planejando algo. Posso ler sua mente.
	Talvez voc esteja certa.
	Vamos, diga logo!
Ele riu, travesso e feliz.
	Eu lhe contarei quando estivermos voltando para a casa de sua me  prometeu, comeando a correr na direo do jipe.
	Covarde!  Amy gritou, correndo atrs dele.
	John ainda no saiu daquele quarto. Nem por um minuto, e isso desde que entrou  Patti contou a Amy e Brian, ao v-los chegar.
Ele riu.
	Talvez tenham decidido no perder mais tempo. J se passaram cinquenta anos, voc sabe  insinuou.  Na certa decidiram pular a formalidade da cerimnia e ir diretamente para a lua-de-mel.
Patti ficou horrorizada.
	Espero que no!
Amy tambm riu.
	Agora eu sei por que mame preferiu morar comigo depois da cirurgia...  brincou com a irm.  Voc parece uma madre superiora!
	No seja tola!  protestou Patti.  Como voc no estava casada, era mais simples mame ficar em sua companhia.
	Mas essa situao vai mudar dramaticamente  Brian interveio, segurando a cintura de Amy com um gesto possessivo.
	Um acontecimento que recuperou minha f em milagres 	Patti instigou.
Ele voltou-se para Amy.
	Talvez tenhamos que repensar essa questo do casamento disse, fingindo genuna preocupao.
	Brian!
Ele torceu o nariz.
	No sei se a aguentarei como cunhada  brincou.
Patti olhou para o futuro cunhado com indignao.
	O sentimento  mtuo  assegurou.
Amy colocou-se entre os dois.
	Agora estou percebendo que foi muito bom eu e Brian termos decidido morar no Maine.
Ele ergueu os olhos para o alto da escada.
	O que acham que aqueles dois esto fazendo l em cima?
	Planejando o casamento. O que mais?
Brian fitou Amy e sorriu.
	Acredita realmente que j estejam planejando a cerimnia?
	Claro que sim!  ela assegurou.  Afinal de contas, seu pai no  como voc. Nem tem todas as suas reservas em relao ao casamento.
	Reservas? Que tipo de reservas?
	De quanto tempo dispe para ouvir?  Amy provocou.
Ele ainda se mostrava surpreso.
	Acredita mesmo que papai j tenha feito o pedido?
	J?  Amy riu.  Quando o encontramos naquela estao, em New Hampshire, ele estava pronto para isso. Para dizer a verdade, sentia que chegava atrasado. Uns cinquenta anos, no mnimo.
	Papai lhe disse isso?
Ela inclinou a cabea, confirmando.
	No com essas mesmas palavras, mas o sentido foi esse.
	Quando?
	Hoje de madrugada.
	E onde eu estava?
	L fora, na chuva, aparentemente imaginando o que fazer para dar a partida no jipe  ela respondeu.
Brian respirou fundo.
	Papai realmente ama sua me.
	Sim, ama.  Amy tocou-lhe o brao ternamente.  Voc ainda tem algum preconceito em relao  unio de seu pai e minha me?
Ele balanou a cabea, negando.
	Apesar dos problemas que tivemos no passado, amo meu pai profundamente... e desejo realmente que ele seja feliz. Pelo menos uma vez na vida.
	Mas?  Amy tinha a clara sensao de que havia algo por detrs daquela determinao.
	Mas...  ele comeou, respirando fundo , uma parte de mim sempre continuar desejando que meus pais pudessem ter se amado verdadeiramente.
Amy franziu as sobrancelhas, comovida.
	Sinto muito.
Brian a estreitou nos braos fortes.
	Por outro lado...
Ela ergueu os olhos, para fit-lo.
	Por outro lado...?
	Se no fosse pelo amor de nossos pais e pela ineficincia do servio postal, voc e eu jamais teramos nos conhecido respondeu, beijando-a na testa.
	Se no fosse pela ineficincia do servio postal, ns nem teramos nascido!  Amy completou, rindo.
	E eu jamais saberia o que estava perdendo!
Ela o beijou docemente.
	Talvez este seja um bom momento para terminar a discusso que iniciamos pouco tempo atrs...
	Qual discusso?
	A do smoking, est lembrado?
Ele balanou a cabea com veemncia.
	Oh, no!  respondeu com firmeza.  Sem chance! Por nada neste mundo eu...
Ela o beijou novamente.
	No?
	No!
Mais um beijo.
No?
	Bem, talvez...
Outro.
	E agora?
	Mas que diabos! E apenas uma noite!  ele se rendeu.
Amy no pde deixar de rir.
	Como est sendo muito condescendente, no vou lhe cobrar a aposta  disse, fazendo o contorno dos lbios de Brian com a ponta dos dedos.
	No mesmo?  Ele estava adorando aquilo.
	Quer saber?  Amy o beijou lenta e profundamente. Eu tambm no quero esperar. J esperamos demais para comear a formar uma famlia.

EPLOGO

	Quando eu poderia imaginar que um dia voltaria a me casar? E, para completar, numa cerimnia dupla? Mais inacreditvel ainda, no mesmo dia do segundo casamento de meu pai?
Percebendo que Brian estava com dificuldades em fazer o lao na gravata, por causa das mos trmulas, Jerry se aproximou para ajud-lo. Os dois se encontravam numa pequena sala da igreja, preparando-se para a celebrao.
	No  estranho? Katie disse a mesma coisa a seu respeito, hoje pela manh.  Enquanto apalpava o bolso da lapela para certfcar-se de que no esquecera as alianas, Jerry no es condia a admirao que sentia.
	A ltima coisa que eu desejava era ver meu pai casado com Maran Haskell. No  irnico?  Brian levantou a cabea e manteve-a ereta, esperando que o cunhado terminasse o lao.
Jerry concordou, com um sorriso.
	Voc nunca fez segredo disso.
	Infelizmente.
	Por que infelizmente?
	Jamais vi meu pai to feliz como quando reencontrou Marian  foi a resposta.  Katie esteve certa o tempo todo, e s agora de dou conta disso.
	Certa a respeito de qu?  Jerry deu um passo para trs quando terminou de arrumar a gravata de Brian, para ver o resultado da tarefa.
	Ela no acreditava que Marian fosse o motivo do rompimento de meus pais  disse ele, conferindo o trabalho do cunhado no grande espelho da sala.
	Eu sei. Katie me contou.
	E ela estava certa. No caso de nossos pais, simplesmente um no nasceu para o outro  Brian asseverou.  Eu no fazia ideia do que aquilo significava at ver papai e Marian juntos. Eles, sim, nasceram um para o outro. H uma atrao entre os dois, meu caro, que nunca existiu entre John e minha me.
	Uma atrao forte, semelhante  que existe entre voc e Amy?  Jerry indagou.
Brian olhou para o espelho, sorrindo.
	Eu precisava saber o que  o amor para poder reconhec-lo.
	Pode apostar nisso  concordou Jerry.
No instante seguinte, John Reynolds entrou no quarto.
	Que tal?  perguntou, hesitante, exibindo o traje.
	Voc est timo, papai!  Brian assegurou.
	Tem certeza?
	Alguma vez menti para voc?
John fitou o filho com gravidade.
	Pensando bem, no  admitiu.  Houve ocasies em que desejei que mentisse pelo menos um pouco, mas isso nunca aconteceu.
	Nervoso, meu sogro?  perguntou Jerry, aproximando-se da porta.
	Nervoso? Depois de todos esses anos?  John riu.  No, apenas ansioso para terminar logo com isso. Na minha idade, no posso perder nem um segundo!
Jerry abriu a porta.
	Ento, vamos  luta?  convidou.
John concordou de imediato.
	No vejo a hora!  respondeu, seguindo o genro para fora da sala.  Brian? Voc no vem?
	Estou indo.
Ele parou por um momento, a fim de certificar-se de que no se esquecera de nada. Aquele era um dia em que tudo tinha que dar certo.
	Est se preocupando por nada, mame  Patti tranquilizou Marian.  Voc est maravilhosa!
Parou atrs da me, que, sentada diante do toucador, ajeitava cuidadosamente os cabelos com as pontas dos dedos. Marian usava um tailleur azul-claro, que favorecia sua pele alva e seus cabelos grisalhos. No pescoo, usava um simples colar de prolas. Nada mais.
Quando viu que a me ficou satisfeita com o cabelo, Patti tirou o chapu que ela usaria de dentro da caixa. Era um pequeno casquete com vu, no mesmo tom do vestido. Posicionou-o sobre a cabea de Marian a ajeitou o tecido.
	O que acha? Est bem assim?  indagou.
	Creio que sim.  Marian se voltou.  Amy?
Amy estava parada diante do nico espelho grande da sala de vestir, enquanto Katie dava os ltimos retoques em sua roupa, um tailleur curto de seda, na cor marfim. Usava um chapu de abas largas, no mesmo tom do vestido. Decidira deixar os cabelos soltos, e as ondas suaves emolduravam seu rosto com perfeio.
	Voc est fantstica, mame!  Amy assegurou com um sorriso doce.
	Mas voc, irmzinha... Bem, est parecendo outra pessoa  comentou Patti, fitando-a atentamente de alto a baixo.
Ela ergueu uma sobrancelha.
	No gosta da roupa?
	Adorei o tailleur  respondeu Patti.  S que nunca a vi usando nada to... elegante.
	Em outras palavras, esperava que eu me casasse com uma roupa informal, de couro?  Amy riu.
	Bem, no...
	Aposto que sim  brincou ela, ajeitando a aba do chapu.
	No  verdade!  Patti insistiu.
	Elas ainda brigam como se fossem crianas  Marian disse a Katie.  Nesse ponto, creio que minhas filhas nunca iro mudar. At j me resignei, sabe?
	Posso dizer o mesmo sobre mim e meu irmo  Katie comentou, fingindo aborrecimento.
	E a lei da natureza  Patti decidiu.
Marian notou que Amy se aproximara da janela, distanciando-se da conversa. Virou-se ento para a outra filha:
	Patti, voc e Katie querem nos dar licena?   pediu.  Gostaria de ficar um minuto a ss com Amy, antes da cerimnia.
	Claro, mame.
As duas mulheres saram da sala rapidamente. Marian ento aproximou-se da filha mais nova.
	Est nervosa, querida?  perguntou em tom suave, terno.
Amy fez que no com um balanar de cabea.
	S estou me perguntando se isso  realmente verdade... Se est mesmo acontecendo  admitiu.
	O que quer dizer?
Marian franziu a testa, intrigada, e a filha prosseguiu:
	Sabe, querida, uma parte de mim jamais imaginou que este dia pudesse chegar.
	Por que no?
	Quando me casei com Parker, estava to segura do que fazia...  recordou.  Sentia que o conhecia tanto quanto seria possvel conhecer um ser humano, e veja o que aconteceu.
Marian segurou as mos da filha entre as suas.
	Ns todos cometemos erros de julgamento, meu amor. No se preocupe mais com isso.
	Jurei que jamais voltaria a me casar  Amy insistiu.
	Felizmente, voc mudou de ideia... e c estamos ns!  disse-lhe Marian.  Quer saber? Quando imaginei que John tivesse parado de me amar, disse a mim mesma que nunca voltaria a olhar para outro homem. Entretanto, seu pai me fez mudar de ideia. E olhe que vivemos felizes durante quarenta anos!
Amy sorriu.
	Voc realmente amou papai, no foi?  quis saber.
	Amei, e com toda a fora de meu corao  Marian respondeu com honestidade.
	Fico feliz por isso.
	Agora, chegou o grande momento!  disse Marian, pondo um fim ao ar melanclico da filha.  No quer chegar atrasada ao prprio casamento, quer?
Foi uma cerimnia belssima: simples mas elegante, rpida mas cheia de ternura e amor. Os dois casais fizeram as juras diante de um pequeno grupo de familiares e amigos,  luz de velas. Em seguida, houve um delicioso jantar no hotel, com muita msica e animao.
	Vocs vo viajar em lua-de-mel, espero  disse Katie a Brian e Amy depois de cortado o bolo.
	 claro que sim!  Ela riu, limpando os dedos com um guardanapo.
	E para onde vo? J decidiram?
Brian sorriu maliciosamente.
Ah,  surpresa. No posso contar.
Pois para mim pode contar sim, mano  ela insistiu.  Sei manter um segredo.
O qu? Mas que grande mentirosa... Seria como publicar a notcia num jornal!
Brian!
	E quanto queles dois?  ele indagou, acenando com a cabea na direo de Marian e John, que estavam cortando o bolo naquele momento.
Amy sorriu com ternura.
	Vocs nem poderiam imaginar  Katie disse, os olhos brilhantes.
Aonde iro?
A Atlantic City.
Atlantic City?
	Se vocs no" se lembram, era l o lugar charmoso e romntico de quando eles eram... bem, jovens  lembrou Amy.
	Oh, sim... Passeios ao longo da praia banhada pela lua...
	Exatamente, querido.
	E vocs, j decidiram onde vo morar?  Patti quis saber.
	Em Porto de Burke, irmzinha  Amy respondeu sem hesitar.
	Teremos que procurar uma casa assim que voltarmos da lua-de-mel  Brian comentou.  Creio que os pombinhos desejaro ficar a ss.  Apontou ento para John e Marian.
	Estamos procurando um lugar perto do mar  disse Amy.  O que realmente quero  uma casa onde eu possa instalar meu escritrio, com uma janela para o oceano.
	Quanto a mim, ficarei feliz em qualquer lugar, desde que esteja a seu lado  assegurou Brian.
	Contanto que estejamos juntos, qualquer lugar vale a pena  Amy concordou.  Desde que seja perto do mar, claro  assegurou com malcia.
	Claro que precisaremos estar juntos  disse Brian, com ar divertido.  Afinal, de que outra maneira poderemos comear uma famlia?
Definitivamente, nenhum deles podia mais esperar. J haviam perdido muito tempo. Agora, tudo o que queriam era compartilhar a vida, os sonhos, os conflitos. E, claro, a felicidade.


FIM
